Vista além-mar

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Design reina soberano no apartamento da arquiteta Fernanda Marques em Lisboa

O apartamento de 120 m² da designer Fernanda Marques.

O apartamento de 120 m² da designer Fernanda Marques. Foto: Fernando Guerra

Lisboa vive um momento de entusiasmo. Com muitos bairros históricos revitalizados, edifícios restaurados e ainda a possibilidade de visto para quem investir no seu mercado imobiliário, a capital portuguesa vem se tornando, em ritmo acelerado, alvo preferencial de muitos brasileiros interessados em estreitar seus laços com o Velho Continente. 

“Confesso que me transferir para lá, até o momento, não está entre as minhas prioridades. Mas as viagens constantes acabaram despertando em mim o desejo de estabelecer um posto avançado na Europa e, por tudo o que a cidade oferece, Lisboa não poderia ser a locação mais adequada”, conta a arquiteta paulistana Fernanda Marques.

Há um ano ela é proprietária deste apartamento de 120m², que foi submetido a um completo retrofit que durou 4 meses, conduzido, localmente e à distância, por seu escritório em São Paulo. Um imóvel de dois dormitórios, situado no histórico e badalado Chiado. Bairro lisboeta que nos últimos anos passou por um audacioso processo de revitalização, conduzido pelo arquiteto, prêmio Pritzker 1992, Álvaro Siza.

“O empreendimento onde ele se encontra, o Paço do Duque, é também um projeto dele. A construção remonta a 1500. Já foi um monastério, mas hoje seu uso é completamente residencial. Cada unidade é diferente da outra, mas todas contam com paredes grossas, remanescentes da construção original. Digamos que por aqui é possível se sentir, literalmente, o peso da história”, brinca Fernanda.

Até por isso, assume ela, imprimir traços do passado e da cultura locais aos interiores do apartamento se transformou, desde o início, em um dos seus desejos imediatos. Isso, claro, preservando suas raízes minimalistas e, assumidamente, contemporâneas. “Me agrada a sensação de pertinência que se desfruta aqui. Isso de alguém que chega pela primeira vez e diz se sentir mesmo em Lisboa”.

Nesse sentido, a linhagem europeia do apartamento se fez notar pelo uso intensivo de 'boisseries’, ou molduras de madeira, que se espalham por todas as paredes. Já Portugal, especificamente, ganha destaque no living, por meio de um painel de azulejos azuis e brancos do séc. 18, reproduzindo o batismo de Cristo. Além da cozinha, que traz em seu desenho o DNA português: vem de Entremos, na região do Alentejo, o mármore que reveste sua parede de fundo. No mais, a bordo da caravela insinuada na fotografia de Dora Longo Bahia, no centro da sala de estar, a imaginação de Fernanda se deixou levar pelas águas do contemporâneo.

Grande ênfase foi dada ao design italiano, mas igualmente a peças de inspiração vintage. Como a mesa de centro de linhas orgânicas e pés palito que a arquiteta encontrou no Marche aux Puces, em uma de suas idas a Paris. “Me agrada promover encontros inesperados em meus interiores”, declara.

“Não gosto da ideia de compor, combinar. Acredito em móveis que por suas qualidades intrínsecas, tenham autonomia, identidade própria”, considera ela, que em um surto de rebeldia explícita resolveu pintar uma faixa amarela bem no meio da sala. “Foi uma provocação. Apenas para criar um ruído”, conclui.