Verde e arte, união mágica

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

Em sua casa-ateliê rodeada de jardins e esculturas, no Brooklin, o pintor Jorge Bussab encontrou o melhor lugar para produzir seu trabalho. E também para praticar um hobby: o [br]modelismo de pequenos barcos

Criaturas mágicas forjadas em ferro pontuam os jardins do terreno de 800 m² que circundam a casa erguida no Brooklin. Em meio à vegetação, árvores como quaresmeiras e pinheiros atraem periquitos, sabiás, bem-te-vis, pombas, corujas e tucanos, entre outros. "Para um amante da natureza como eu, é gratificante morar e trabalhar num lugar onde ela continua viva", explica o pintor paulistano Jorge Bussab. A construção, reformada pelo irmão arquiteto, Silvio, há 32 anos, tem um quê árabe. No escritório, por exemplo, as altas janelas em arco com centenárias grades de ferro, remanescentes da residência dos pais, são uma referência às raízes libanesas da família. O ambiente envolto em uma atmosfera de passado é o mais usado do imóvel - "depois do ateliê, claro". Cercado por quadros, discos e livros, Jorge se recosta na poltrona para ouvir música, ler, fazer palavras-cruzadas ou simplesmente contemplar o jardim. Um de seus primeiros trabalhos tem lugar de honra: está pendurado no alto da parede. A obra retrata a cabana entre as palmeiras do sítio Bom Jardim, que o artista manteve durante anos em Paraty e para onde ia todos os meses, quase sempre acompanhado pelo pintor Carlos Blank. Embora pareça não haver muito sentido alguém viver sozinho numa casa tão grande - há seis anos a mulher do pintor, Maud, faleceu -, o artista plástico não cogita morar com os filhos. "É impossível levar tudo, tampouco deixar minhas coisas para trás. E não sinto solidão porque tenho amigos e a minha arte", afirma o pintor, que não se atém à origem do mobiliário e dos objetos. "A decoração era especialidade de Maud", diz. A cantoneira de madeira (80 cm de altura, cerca de R$ 245, no Depósito Santa Fé), que faz às vezes de bar, no estar, foi aquisição dela - "talvez seja de algum antiquário de Minas", arrisca. O ambiente também preserva peças que pertenceram aos pais, como o baú e o par de cadeiras francesas. Em uma parede, nota-se uma das quatro tapeçarias produzidas por Bussab. O artista destaca a importância dos três relógios antigos (carrilhão da marca alemã U.M., cerca de R$ 1.450, na Vera Relógios) perfilados na parede ao lado da lareira - ele os comprou quando nasceram seus filhos. O primeiro foi há 40 anos, dedicado a Cláudia. O ritual se repetiu dois anos depois, com a chegada de Heloísa, e terminou com o nascimento de Ciro, há 36 anos. Outro xodó de Bussab tem espaço garantido no estar: os veleiros em miniatura. O artista conta que há 15 anos se dedica ao hobby do modelismo - ele mostra, com orgulho, a réplica do galeão Ark Royal, de 1728. Nessa pequena galeria, o retrato do bebê Bussab (de 1 ano) se destaca entre as pinturas. Difícil encontrar espaço para mais um quadro em qualquer das paredes da casa. A maioria é do próprio Bussab (a partir de R$ 1.500, no ateliê do artista), mas, no acervo de cerca de 300 obras, há telas de Carlos Blank e Aldo Bonadei (dos quais foi aprendiz). O caminho que leva ao ateliê, nos fundos do terreno, serve de galeria ao ar livre para esculturas de ferro (a partir de R$ 2 mil, com o artista) e cerâmicas coloridas incrustadas em nichos no muro, envoltos pela hera. Na construção, pincéis e tintas se acomodam em potes espalhados sobre a mesa. Pigmentos como azul-royal e vermelhão agora estão em desuso, já que a tarefa de preparar a própria tinta, armar a tela e fazer a moldura, como era praxe entre os artistas, foi deixada de lado ("...dá muito trabalho"). Entre as mais de 100 pinturas sobre papel, o sítio reaparece inacabado, pintado de memória em vigorosas pinceladas de verde na tela sobre o cavalete.