Verde contra guerra

John Lelland, do New York Times - O Estado de S.Paulo

Esculturas vivas embelezam capital iraquiana

Khalil Abbas, de 58 anos, trabalha com plantas desde os 7 e seu viveiro de árvores pode ser considerado um barômetro dos rumos do Iraque. Na década de 1970, quando a população foi beneficiada pelo dinheiro do petróleo, fregueses o procuravam encomendando jardins elaborados e comprando plantas importadas da Jordânia e da Síria. Com a invasão americana de 2003, os negócios foram paralisados. Mas, conforme as condições de segurança melhoraram, as pessoas voltaram ao seu viveiro, no bairro de Jadriya. O número de clientes se multiplicou em oito vezes desde 2005, impulsionado também pela venda de pequenas palmeiras - que custam US$ 350 cada. "Muita gente está recebendo dinheiro do governo. Por isso, o movimento agora vai além das compras das embaixadas."

 

Os jardins continuam sendo uma das poucas manifestações de decoração pública nas ruas marrons de Bagdá, desafiadoras exibições de folhagem em meio a resistentes paredes de concreto e postos de controle. Nos bairros de classe média, vê-se uma cidade de surpreendentes esculturas: fícus topiados em forma de espirais, esferas, arcos e cubos impõem ordem à caótica extensão urbana. As árvores fornecem um notável contraponto de cor e curvas às casas e paredes de coloração uniforme e formas retilíneas.

 

"Este é nosso reino, nosso lar", diz o engenheiro Mohammed al-Khalidy, entre fícus cortados como bonecos de neve. Nos piores anos da guerra, segundo ele, era difícil comprar plantas, mas, mesmo quando havia carros-bomba explodindo no bairro, sua mãe insistia em regar o jardim.

 

Para Falah Mohammed, de pé sob um imenso arco vivo ao lado da garagem de casa, a melhoria na segurança de Bagdá trouxe outros problemas: ele não consegue encontrar um jardineiro com tempo para cuidar de suas árvores.

 

As plantas esculpidas (ou topiarias) não estão entre as tradições do Iraque, explica Salwa Nori, engenheira agrônoma e paisagista. Ela fechou seu escritório no período mais violento, mas, desde 2006, acompanha o aumento da procura pelas esculturas vivas. "As pessoas viajam e trazem consigo o gosto por elas", acredita.

 

Em uma rua castigada do bairro de classe média de Zayouna, Muhi Mohammed Hussein podava, usando molde de arame, uma elaborada águia. Ele chegou a mudar para Dubai no auge da violência, mas agora diz haver lugar em Bagdá para suas criações. Abbas disse que, no momento, a tendência é a compra de mudas - que as pessoas pretendem podar no formato de seus nomes. Perto do viveiro, os escombros de um edifício denunciam os efeitos de um carro-bomba. Apesar desse cenário inóspito, entre suas criações, Abbas se mostra sereno.