Uma lição para o futuro

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Dois arquitetos italianos concebem projetos de casas a partir da mítica Ville Arpell, do filme Meu Tio

O tempo se transforma em matéria-prima na mostra Futur Intérieur (Futuro Interior) - atividade paralela ao Salão do Móvel de Paris, na edição de janeiro de 2007, que colocou em discussão o desenho dos interiores contemporâneos segundo a visão de nomes representativos do cenário internacional: os italianos Carlo Colombo e Paola Navona. Encarregados de conceber duas residências completas, que colocam em confronto abordagens atuais de projetos, elas têm como pano de fundo a mítica "Ville Arpell", casa-cenário do cineasta francês Jacques Tati para seu filme Meu Tio ("Mon Oncle"), de 1958. Projeto elevado à categoria de ícone por gerações de cinéfilos, na verdade, uma bem-humorada alegoria da Máquina de Morar, de Le Corbousier, nos anos 20 - um dos manifestos-síntese do movimento moderno, que introduziu procedimentos revolucionários para a arquitetura residencial da época, tais como a ênfase na continuidade dos espaços, a ausência de corredores e a idéia da higiene aplicada ao desenho da casa, levando em conta as boas condições de ventilação e iluminação. Repertório - guardados os excessos decorativos - bem representado no cenário proposto por Tati. Um minucioso trabalho de elaboração cenográfica (quase uma maquete em escala natural), que exprime, antes de tudo, a idéia de futuro algo ingênua dos anos 50, reconstruída em todos os seus detalhes. Incluindo as peças emblemáticas, como a escada vazada de concreto com degraus apoiados em um eixo central e as esquadrias circulares, tipo escotilha, além dos espaços externos, caso da varanda e da garagem. Sem dúvida, um emblemático ponto de partida para a reflexão sobre o morar contemporâneo. Cenografias domésticas Na visão do arquiteto Carlo Colombo, uma experiência que deve ser vivida de modo fluido, de preferência em uma casa tipo contêiner: um grande invólucro, transparente e neutro, capaz de interferir o mínimo possível na percepção do espaço. Com essa perspectiva, Colombo concebeu para a mostra parisiense interiores de gosto a um só tempo simples e sofisticado, a partir da abordagem quase espartana da decoração, expressa na ausência de divisórias, no número reduzido de acessórios ornamentais e, sobretudo, na disposição precisa dos móveis de design contemporâneo. Uma casa que parece ter o presente como foco e, para a qual, o futuro já chegou. Caracterizando a essencialidade da construção, o branco e o preto são empregados para delimitar as diferentes modalidades de ocupação do espaço. Nas áreas de transição, a transparência é alcançada por meio do vidro e do metal. Perceptível no projeto, a quase obsessão em fazer os vazios adquirirem dimensão cenográfica não representou, no entanto, a renúncia a elementos alheios ao rigor da arquitetura. Presentes nas mesas e cadeiras, a madeira, o couro e a pedra se destacam na decoração, retomando uma dimensão sensorial - e hoje tomada como necessária - muitas vezes negligenciada pelos projetos contemporâneos. Interesse, aliás, muito bem representado na casa desenhada por Paola Navona. Espaço eclético que denota ampla contaminação entre os vários aspectos da produção atual - design, arte e moda - e que encontra sua expressão na alquimia desses elementos. Segundo Paola, um loft projetado para abrigar todos os luxos contemporâneos. Sem limitações cronológicas ou estilísticas, ela concebe o ambiente doméstico como um território aberto à experimentação e criado, acima de tudo, para comunicar sensações e estados de ânimo. Domínio da sensibilidade, aberto à imperfeição, do "feito à mão" e do tecnológico em convivência ruidosa e não raro antagônica: móveis de design, lado a lado com peças de acervo familiar, no living; equipamentos industriais em meio a painéis de cristal líquido, na cozinha; e lençóis cuidadosamente rasgados e envelhecidos sobre a cama king size, frente à ducha ultra-polida, em um canto do quarto. "Não procuro referências no passado, nem sou particularmente interessada no futuro. Penso conceber interiores onde viver seja uma experiência rica e celebrada com prazer", diz a arquiteta.