Tudo o que sobra

- O Estado de S.Paulo

O designer Rodrigo Silveira transforma restos de madeira em bancos exclusivos

Em uma de suas muitas idas à praia, Rodrigo Silveira encontrou um pedaço generoso de ipê branco perdido na areia. Sem pensar duas vezes, colocou a peça no carro e a trouxe para São Paulo. Depois de muito avaliar o achado, criou o banco # 07, de madeira maciça - único e já fora de catálogo. Muitas outras peças exclusivas já saíram da oficina deste surfista de 28 anos, formado há seis em desenho industrial na Faap, que só fabrica banquinhos.

 

Além de sempre ter gostado do móvel, Rodrigo considera que nele pode exercitar mais a criatividade e aproveitar da melhor forma possível as sobras que recolhe em marcenarias e depósitos de demolição ou em amontoados de lixo na rua mesmo. "Dificilmente vou encontrar o mesmo pedaço que possibilite a criação do mesmo móvel", afirma o designer. "Por isso, quem quiser comprar vai saber que aquela será uma peça única."

 

Mas nem só de sobras vive o designer. Bancos seriados também podem nascer da encomenda de um cliente ou de um rabisco em papel. Com o projeto em mãos, ele escolhe a matéria-prima. "Prefiro madeiras brasileiras, o apelo lá fora é maior", admite. Isso significa, como regra, que a madeira será certificada, ou pelo menos legalizada pelo Ibama. "Não sou ecochato, mas hoje em dia não dá para não ter esse tipo de preocupação, mesmo porque essa matéria-prima é o instrumento do meu trabalho", reconhece.

 

Ele também tem sempre em mente a ideia de fazer móveis que durem. "Gosto de quem desenha sem se preocupar com modismo", conta. Nomes como Sergio Rodrigues e Carlos Motta, seu professor na faculdade, são algumas de suas referências, bem como o modo de vida sem luxos dos shakers, antiga comunidade protestante dos Estados Unidos. Simples, duráveis e de madeira reaproveitada, os banquinhos de Rodrigo traduzem sua busca por um mobiliário sustentável.

 

Assim como os bancos, o designer criou um site com personalidade, o rodrigoquefez.com.br, onde divulga seu trabalho de maneira divertida. Com trechos como "Sabe aquele gordinho simpático? Este banco pequeno, mas de proporções generosas, é assim: muito simpático", ele conquista clientes fiéis - que esperam até seis meses por uma encomenda.

 

Na mesma direção, deve sair a primeira exposição de Rodrigo, ainda sem data e lugar marcados. "Estou pensando em uma coisa diferente, que aproxime o fine arts do design", ele adianta. Quem conhece o espírito criativo do rapaz garante que vem coisa boa por aí.