TUDO É UMA IDÉIA

- O Estado de S.Paulo

Imagens arquetípicas de Lúcio Carvalho marcam o apê do artista plástico

Sob a mesa de 24 lugares na fazenda em Cambuci, no interior do Rio de Janeiro, Lúcio Carvalho, por volta dos 7 anos, costumava desenhar o que via lá embaixo quando a família numerosa se reunia em sua terra natal. ''''O resultado era uma profusão de pés distorcidos e em proporções enormes, com o traço tosco típico das crianças'''', conta. Até hoje, essa lembrança primordial reina no trabalho do artista plástico, classificado por ele com uma única palavra: contemporâneo. Nas obras espalhadas pelo pequeno apartamento na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo, onde vive com o empresário e amigo Tuca Corazza, percebe-se a construção de um universo imagético de colagens, que, segundo Carvalho, revela inspiração no realismo fantástico. É praticamente impossível passar batido pelos grandes painéis que convidam a observar, aqui e ali, os detalhes. O branco do piso e das paredes e a iluminação pontuada conferem o clima de galeria de arte, onde peças atuais ganham toques do passado. Revestido em couro vermelho, o vibrante sofá de linhas retas se harmoniza com as poltronas forradas de tecido impresso com imagens criadas pelo próprio artista (na Tergoprint, o m2 custa a partir de R$ 150, com o desenho fornecido). Sem contar a bem cuidada folheação a ouro desenvolvida por Marystela Pappalardo (R$ 1.500 por exemplar). No ambiente de estar, demarcado por tapete, cubos de fibra de vidro pretos fazem as vezes de pufes (R$ 792, na Filter). Cor igual se nota no suporte para o vaso com dracena arbórea, que explora a verticalidade e traz o verde para o interior. O ambiente de jantar anexo compõe-se de bufê e mesa dos anos 50, arrematados de um amigo, que vão bem com as cadeiras de estrutura metálica e couro trançado. Na parede, destaque para o backlight pertencente à série ''''Subdivisíveis'''', que evoca aquela mesma mesa da fazenda da infância do autor (R$ 6.500, no ateliê do artista). De ursinhos a borboletas, de gente a moscas, tudo parece estar nas 24 diferentes imagens. Assim como no minimundo de objetos e brinquedos com partes intercambiadas, que, nas estantes do escritório, às vezes funciona como ensaio para os trabalhos. ''''Tudo isso é um retrato do meu inconsciente'''', diz o artista, que numa fase anterior ficou conhecido por recortes de madeira com os personagens de pés e mãos superdimensionados, sua marca registrada. Um deles figura na sala de estar. ''''Mas comecei a ser copiado e foi então que mergulhei no computador'''', diz ele, buscando reiventar-se. Hoje, as obras brotam e expressam a virtualidade dos programas de computador. Nenhum dos modelos, por exemplo, existe de fato, embora pareçam reais. As imagens podem ganhar diferentes suportes, como tela, vidro, espelho e tecido, mas quase nunca se repetem. A linguagem desenvolvida por Carvalho, que é formado em desenho industrial, vai além da arte em si e se intersecciona com a moda, a publicidade e o design, segmentos nos quais atuou. O autor não deixa de explorar essas possibilidades. "Claro que tento dividir na minha cabeça o que vou fazer em cada área", tenta explicar. As campanhas da grife francesa Cimarron, por exemplo, levam sua assinatura. Ele também criou uma série de produtos em parceria com a loja Conceito: Firma Casa, caso do adesivo de vinil numa das paredes do quarto (R$ 95). Ali, o branco continua soberano, seja nas capas dos sofás que formam uma saleta de estar, seja na cama, atrás da qual um console serve de apoio, já que não havia espaço para criados-mudos. Num canto, uma mesinha redonda com pés que lembram libélulas revela a inspiração art nouveau que o artista Lúcio teve ao criar a peça. "Minha vocação é multimídia", considera ele.