Tesouro Vivo

Julia Contier - O Estado de S.Paulo

Colorida com cinza vegetal, a cerâmica de Hideko Honma ganha tom único e encanta visitantes que frequentam o ateliê para cursos e workshops, bem como os admiradores da técnica

Ao receber de um tio um manuscrito com receitas de esmaltes vidrados, quando visitou o Japão, Hideko Honma se viu na responsabilidade de criar as mais belas cerâmicas que pudesse imaginar. Não fosse esse detalhe, talvez a viagem para o Oriente, há 18 anos, não a tivesse transformado em uma grande ceramista. Isso porque, assim como seus ancestrais, Hideko aprendeu a tratar os utilitários como obras de arte.

 

Por meio da queima de palha de arroz, folhas de pinheiro, bananeira, samambaia-do-mato, abacateiro, jaqueira, grama e gravetos, ela produz esmaltes brilhantes, foscos, acetinados, brancos, azuis, verdes e marrons. Cada peça fica no forno, que atinge 1.300° C, por 18 horas. Essa queima imprime as cores e as texturas da matéria-prima recolhida em Nazaré Paulista, interior de São Paulo, onde Hideko exercita sua criação.

 

É por isso que quem entra em seu ateliê, em Moema, não se depara apenas com utilitários para as culinárias japonesa e contemporânea de cerâmica, mas com verdadeiras esculturas, nas mais diferentes colorações.

 

Preocupada com sua alimentação, a ceramista, graduada em artes plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e com mestrado pela Faculdade de Comunicação e Artes (ECA) da USP, tem a maior parte da produção voltada para a cozinha. Atualmente, o que ela mais gosta de fazer são pratos. "Por muito tempo fiz peças mais fechadas, como copinhos de chá; hoje prefiro as abertas que, de cara, mostram sua essência", diz ela. "Você vê a personalidade de quem fez, se tem dor ou se não tem."

 

Grande parte da inspiração de Hideko vem de bons restaurantes que frequenta com o marido. "Converso com os chefes, visito exposições e acabo tendo ideias de criação de novas coleções", conta. Para não perder um momento de inspiração, ela sai sempre com seu caderninho. Com o bloco cheio de anotações, nos fins de semana parte para seu sítio para criar. "É lá que olho as anotações e penso em novas peças, em diferentes esmaltes", revela. Foi assim que surgiu sua última criação, os empilháveis, muito usados no Japão. "Alguns restaurantes adoraram para servir obentô, uma espécie de marmita sofisticada", explica.

 

Após cursar o Arita College of Ceramics, no Japão, onde tomou contato com as técnicas da famosa cerâmica da região de Arita e aprimorou suas habilidades, a ceramista lecionou as disciplinas de estética e história da arte na Faculdade Santa Marcelina, além de fazer monitoria e montagem em bienais internacionais em São Paulo.

 

Com essa experiência na área artística, também ministra cursos e workshops em seu ateliê, frequentado principalmente por japoneses, ou descendentes, preocupados em resgatar uma tradição oriental. "Antes vinham pessoas que queriam ser ceramistas, mas hoje a maioria está em busca de algo que lhes dê prazer e conhecimento", afirma.

 

A professora também atua como divulgadora da arte da cerâmica a convite de diversas instituições. Confeccionou 1.240 peças utilizadas em um jantar oferecido para o príncipe Naruhito, como parte das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, em 2008. E, com chefs renomados, promove o evento beneficente Sukyiaki do Bem, em prol de entidades assistenciais.