Tal pai, tal filho

Julia Contier - O Estado de S.Paulo

Zanini de Zanine segue os passos do pai, Zanine Caldas, e firma-se entre os nomes da nova geração do design

 

Zanini de Zanine, carioca de 31 anos, carrega com orgulho, no braço, uma tatuagem com as iniciais do pai, José Zanine Caldas. Do mestre e referência na história do móvel e da arquitetura moderna no Brasil, o jovem tímido e bonito traz não só o DNA, mas também o talento e a inquietação. Apesar de trabalhar peças conceituais em diferentes materiais, ele não esconde o apreço pela madeira, que tanto influenciou a história de seu pai e de outro ícone, Sergio Rodrigues, com quem trabalhou. Além dos dois, Zanine se confessa influenciado por Carlos Motta e os irmãos Campana, "que deram uma linguagem nova ao design brasileiro". Para comemorar o sucesso de 2009 e a inauguração de sua marca, a Doïz, Zanini de Zanine recebeu o Casa&, na loja Micasa, revendedora de seus produtos, em São Paulo.

 

 

Por que você escolheu o design?

Sempre acompanhei meu pai nas viagens. Desde pequeno, tive a oportunidade de conhecer nomes como Lúcio Costa, Sérgio Bernardes, Sergio Rodrigues, Juarez Machado, Jorge Amado. Lembro dos encontros deles quando a gente morava em Paris. Era uma geração muito rica e fui absorvendo tudo. Então, o mais próximo disso que encontrei foi o desenho industrial mesmo.

 

Qual sua área preferida?

Quando comecei, gostava muito de mobiliário. Era desafiante, porque tinha meu pai como referência. Meu primeiro estágio foi com Sergio Rodrigues, que era amigo do meu pai e me acolheu carinhosamente. Foi nessa época que tive certeza de que era esse o meu caminho.

 

Quando percebeu de quem era filho?

Quando fazia Desenho Industrial, na PUC-Rio. Até então eu o via como pai, um pai maravilhoso por sinal. Na faculdade, tive a real dimensão de quem ele era. Ele foi realmente um desbravador – era mencionado nas aulas, nos trabalhos.

 

No início, toda a rede de contatos dele deve ter ajudado bastante, não?

Sim, é como um selo. E ter trabalhado com Sergio Rodrigues também. Quando optei por uma carreira independente, sabia que seria mais difícil. Tive de patrocinar minhas maluquices, me inserir no mercado e fazer com que as pessoas acreditassem no meu trabalho.

 

O que te inspira para criar objetos?

Não tenho um processo de criação. Tenho insônia, e isso me ajuda – muitas das minhas noites são produtivas. Geralmente são pequenos estalos, cenas de cotidiano, exposições, filmes shows, a inspiração pode vir de qualquer lugar. Umas ficam marcadas e outras rabisco em pedaços de papel. E muitas vezes, depois de pronto, parto para a escolha do material. Mas isso não é uma regra. Invariavelmente, a escolha do material acaba me direcionando um pouco.

 

E com quais materiais gosta de trabalhar?

Comecei pela madeira, pelo resgate do que meu pai fazia, pela tradição. Mas gostodos dois extremos, do quente e do frio. Da textura e do calor da madeira e da plasticidade do metacrilato. Hoje uso muito metal, metacrilato, plástico injetado, estofado. Ainda tenho vontade de testar outros materiais.

 

Você também tem peças com pedaços de skate, prancha de surf...

Na adolescência, pegava onda, andava de skate, e essas referências são importantes para mim. Mas tem também o fato de reutilizar material, que é uma linguagem muito usada pelos irmãos Campana. Tenho ainda um banco que fiz de placa de trânsito. Vejo isso como humor e como uma característica bem urbana também.

 

Como surgiu a ideia de construir uma poltrona como a Skate?

Tem muita criança na minha família. Essa poltrona em especial veio inspirada em um sobrinho que tinha ganho um skate e vivia andando com ele de um lado para o outro.

 

Sua linha de mobiliário infantil também foi inspirada nas crianças da sua família?

Nesse caso, acho que foi pela curiosidade de desenvolver as peças, de dar a elas um novo olhar, um lado lúdico, mostrar que um objeto de arte pode ser um brinquedo. Eu gostei, e acho que o pessoal também gostou, porque recebemos dois prêmios nessa linha. Um do Salão Design Casa Brasil (cadeira) e outro do Museu da Casa Brasileira (cavalinho). Penso até em desenvolver outros objetos nessa linha, mas não consigo planejar o que vou fazer com muita antecedência.

 

Mesmo sem planejar, você tem metas para 2010?

Quero testar novos materiais e novas áreas na arte. Quem sabe? Mas mobiliário é realmente minha grande paixão. Neste ano, vou começar a inscrever algumas peças em concursos fora do Brasil. Tem muitos prêmios importantes que ainda quero ganhar.