Sobrado ganha status

MARISA VIEIRA DA COSTA - O Estado de S.Paulo

Arquitetos transformam casa geminada de quase 70 anos num espaço contemporâneo

Da casa original só sobrou a escritura, diz o arquiteto Marcos Biarari. Ele e o colega Marcos Contrera "revolucionaram" um velho sobrado geminado numa rua tranquila do centro de Santo André, no ABC paulista. Sócios, os dois praticamente deixaram apenas as paredes da casa, que, com a reforma, passou de 135 m² para 165 m² e serve ao mesmo tempo de escritório e morada da dupla. "Este é um verdadeiro showroom, pois colocamos aqui nossos conceitos de arquitetura", diz Biarari. "Foi um projeto muito bem pensado. Durante dois anos amadurecemos as ideias que colocaríamos em prática", completa Contrera.

Os dois arquitetos moravam num apartamento em São Bernardo do Campo quando decidiram que era hora de ampliar o negócio. "Tínhamos duas opções. Ou comprávamos uma casa grande e nova na periferia ou uma pequena e mais antiga no centro, perto do bom comércio de decoração da cidade", explica Contrera.

Depois de alguma pesquisa, em 2006, a dupla chegou ao corredor de sobradinhos construídos há cerca de 70 anos na Rua Venezuela, próxima da Avenida Portugal, uma referência de Santo André. "Era um horror", recorda Biarari. A casa, segundo ele, era escura, tinha um telhado de cimentício na entrada e uma escada levava à porta que dava direto na sala. Na sequência, vinham a cozinha, a lavanderia coberta com telhado de plástico, o quintalzinho e uma edícula, que ficava a 1,5 metro do chão. No andar superior, dois quartos e um banheiro no fundo do corredor.

"Logo na primeira visita ficamos entusiasmados, pois imaginamos o que poderíamos fazer. Era uma casa compacta, muito bem localizada e que atendia aos nossos interesses", afirma Contrera.

Como bons arquitetos, eles primeiro contataram um escritório de engenharia para fazer a avaliação do terreno e regularizaram a documentação na prefeitura. "A casa ficou um ano fechada, tempo que demoramos para nos capitalizar e discutir ideias", diz Contrera. Definido o conceito de integração total, a dupla derrubou paredes e providenciou fundações para segurar as estruturas de aço e concreto das laterais. Foram feitos seis apoios, dois em cada vão.

Na entrada, por questão de segurança, aumentaram o muro e viraram a escada de acesso à casa para a lateral. "Ganhamos privacidade, pois quem passa pela rua não vê a porta de entrada, e mais espaço dentro", explica Contrera. Num conceito inovador, mudaram a cozinha para a entrada. O espaço é pequeno (2 m x 2,5 m), mas, bem planejado, abriga geladeira, cooktop, micro-ondas e demais eletrodomésticos. Em frente, também em função do ganho de metragem, fica o lavabo. A partir daí, tudo se integra. A cozinha está a dois passos da sala de jantar e essa ao lado do home theater e do estar.

Uma porta de correr de vidro dá acesso a um canto de churrasco, no lugar antes ocupado pela lavanderia. Em espaço mínimo, os dois Marcos conseguiram colocar churrasqueira, pia, fogão, armários, mesa e banquetas. Uma laje substituiu o velho e feio telhadinho de plástico. O quintal ganhou projeto paisagístico e, em vez de varal, um banco de madeira, vasos e um caminho de pedriscos.

A edícula suspensa que abrigava as dependências de empregada ganhou dupla função. No que era vão, no térreo, foi construído escritório e um quarto para material. E os antigos quarto e banheiro deram lugar à lavanderia. O piso superior da casa, agora acessado por uma escada em balanço a partir do estar, ficou sem corredor. Em compensação, ganhou sacadas conjugadas às suítes.

A dupla de arquitetos escolheu a dedo os materiais, a começar pelas portas de vidro serigrafado e caixilharia de PVC branco (da Móveis Blanco). Só as portas internas são de madeira. Na cozinha, eles próprios desenharam os armários revestidos de laminado branco. Escolheram granito preto São Gabriel para a bancada e pastilhas de 5 cm x 5 cm da mesma cor para o piso e as paredes (da De Stijl).

Para "quebrar" o contemporâneo, a dupla idealizou uma galeria, com cristaleira antiga e um quadro a óleo grande, releitura de um clássico, pintado pelo próprio Contrera. Como não há excessos na decoração, algumas peças chamam a atenção, caso do móvel chinês da L?Oeil, pintado à mão, e o tapete Somak, de lã com fibra (da Pazyrik).