Resina vira natureza minimalista

Julia Contier, de O Estado de S. Paulo - O Estado de S.Paulo

Daniela Ktenas, que tem peças à venda na loja do MoMA, em NY, comemora novo espaço nos Jardins

Bem que ela tentou ser do contra. Filha de um escultor grego e de uma artista plástica, Daniela Ktenas cursou publicidade e chegou a trabalhar em revista, mas não conseguiu negar sua veia artística por muito tempo. Primeiro vieram os móveis, depois as luminárias e os pendentes para colar – todos feitos de resina colorida. Hoje, essa goiana de 38 anos, que tem peças à venda na loja do MoMA, em Nova York, comemora o novo espaço para apresentar e comercializar sua arte: o Boa Bistrô, nos Jardins. O restaurante, que acabou de passar por uma reforma, também exibe em sua decoração obras da artista, entre elas as luminárias em forma de figa e árvore, o dálmata em cima do balcão e os bonecos Bimbo e a Bimba nas portas dos banheiros.

“Minha inspiração vem da arte japonesa, adoro o minimalismo e sou muito observadora da natureza”, diz. Não à toa, o que não falta é bicho na produção da designer. Depois da vaca Moo – que costumava decorar o cenário do programa Saia Justa do GNT –, vieram os gatos, pinguins, passarinhos, cachorros e até unicórnios. Dona de dois felinos, Daniela não se dá por satisfeita. “Ainda falta um cachorro”, brinca. Mas não são só animais que remetem ao mundo natural na obra da artista. Nuvens e árvores também têm vez. “Sou bem urbana, mas adquiri o hábito de contemplar a natureza, e isso me inspira.”

 

O trabalho com resina polida não permite muitos detalhes. “Gosto de trabalhar com o mínimo, com o essencial. O estilo japonês me agrada por ter uma linguagem simples, limpa. O objetivo é propor um silêncio visual”, afirma. Se a designer se alterna entre a argila e o computador para dar forma aos objetos, o acabamento é sempre feito à mão. Por isso, por mais que sejam seriadas, as peças têm um toque manual e são diferentes umas das outras.

Apaixonada mesmo por resina, ela defende a democracia do material. “Como é mole, cabe em qualquer fôrma”, garante. E as peças ganham um tom lúdico com as cores vivas escolhidas. “Gosto mais de vermelho, mas dá para fazer de qualquer cor. A única regra para mim é que sejam opacas.” Sem abandonar a resina, ela planeja agora aprender técnicas de joalheria para sofisticar suas criações.

Até conseguir o reconhecimento atual, Daniela percorreu um longo percurso. Em 2001, quando decidiu entrar no mundo do design, foi até Goiânia buscar os ensinamentos do pai, Angelos Ktenas, que revestia móveis de madeira com resina. “Fui aprender a técnica com ele, que aprendeu com um argentino que morreu, que aprendeu com um americano que também já morreu. Essa história é tão estranha que eu nem conto, parece mentira”, diz, rindo. “Até queria conhecer alguém que trabalhasse com isso para dividir a experiência.”

No ano que vem, Daniela pretende montar um showroom na Vila Madalena. “Minha ideia é unir casa, ateliê e loja.” Por enquanto, quem quiser peças específicas pode encomendá-las pelo blog da designer. Seja qual for o motivo, o objeto e a cor, os interessados sempre vão encontrar uma combinação interessante de arte e resina.