Projetos de design itinerantes conectam lugares e pessoas

Marcelo Lima - Impresso

Instalação e coleção de móveis com peças recortadas a laser, assinados pelo Coletivo Amor de Madre, estão nos Emirados Árabes

Coleção de móveis do Coletivo Amor de Madre apresentada na Semana de Design de Dubai, em outubro. As peças são cortadas a laser e montades com encaixes

Coleção de móveis do Coletivo Amor de Madre apresentada na Semana de Design de Dubai, em outubro. As peças são cortadas a laser e montades com encaixes Foto: Divulgação

“Por aqui nada se perde. Tudo se transforma”, sinaliza o arquiteto e designer paulistano Henrique Stabile, ao ser flagrado pela reportagem do Casa em uma pequena praça no distrito histórico de Al Fahidi, em Dubai, concentrado em montar mesas e cadeiras com componentes destacados de placas de compensado. À primeira vista, um simples jogo de montar, mas com objetivos bem mais audaciosos.

De imediato, questionar o sistema de produção e distribuição de móveis, incentivando a economia de materiais e recursos. Batizado de Deconstruction Zone, o projeto, apresentado pela primeira vez na semana de design de Pequim, no ano passado, leva a chancela do Coletivo Amor de Madre: grupo paulistano fundado em 2009, com o objetivo de incentivar a produção e promover o intercâmbio de designers brasileiros com seus pares ao redor do globo.

“São 24 partes distintas. A forma final dos móveis vai depender, em última análise, de como as partes, recortadas a laser e destacáveis, forem combinadas. A ideia é convidar o visitante a construir e reconstruir seus próprios móveis”, explica Stabile, que tem na pesquisa de possíveis interações entre design, arquitetura e fabricação digital seu principal foco de interesse.

“Os componentes podem dar origem a cadeiras, mesas, mancebos, prateleiras e até vasos. O que sobra das placas pode ser transformado em painéis e divisórias. Tudo por simples encaixe, sem necessidade de ferramentas e nem sequer de parafusos”, comenta o designer, que se diz satisfeito por ter lançado mão de uma tecnologia de ponta para cortar as formas e, ao mesmo tempo, prescindir do trabalho humano para combiná-las na montagem dos móveis.

Segundo ele, como vantagens adicionais em se tratando de uma instalação itinerante, a proposta dispensa transporte e, por ser de imediata compreensão, acaba por despertar o interesse de visitantes por onde quer que passe. “Na realidade, é apenas a matriz digital que viaja. A impressão e o corte acontecem localmente, o que representa incomparáveis ganhos em termos de economia de materiais e de custos, sobretudo com impostos e taxas”, comenta.

“Como aconteceu em Pequim no ano passado, nossa missão foi representar o Brasil durante a semana de design local e, nossa diretriz fundamental, possibilitar o diálogo entre lugares distantes, mas que, em dado momento, podem ser conectar por meio do design, da tecnologia e da arte”, afirma a publicitária e artista plástica de formação Olivia Yassudo Faria, fundadora e diretora criativa do Coletivo Amor de Madre, responsável pela curadoria do projeto.

“Lá, como aqui, nossas iniciativas buscam conectar as pessoas e, nesse sentido, a proposta do Henrique não poderia ser mais adequada. Apesar de singela, sua coleção de móveis aponta para o futuro. Para o processo de produção imaginado por nós”, afirma Olivia, responsável também por A Place To Go, outra das intervenções do Coletivo apresentada em Dubai. Desta feita, em parceria com o estúdio D3, do designer Edson Pavoni.

Concebida como uma espécie de portal, uma instalação que pretende se constituir, antes de qualquer outra coisa, um veículo para expressar intimidade. “Por meio de um sistema de sensores instalado em uma placa de vidro, ele coloca em contato pessoas situadas em lugares distantes. É como se você olhasse através de uma janela”, comenta a curadora.

“Ao tocar a superfície vítrea, uma marca digital é imediatamente transferida para uma segunda janela, permitindo que ele chegue a qualquer lugar. Mesmo que ele esteja situado do outro lado do mundo”, explica Olivia, que já levou o projeto para Pequim e para duas locações estratégicas em Dubai: o secular Al Fahidi e o futuro bairro do design local, ainda em construção.

“Nós do Coletivo entendemos a tecnologia como uma ferramenta para melhorar a vida e diminuir as distâncias, não como um fim em si mesmo. Daí a madeira, que aparece em um painel, ao lado do vidro, para conceder ao portal uma leitura mais simples, suavizando o componente tecnológico da instalação e enfatizando sua conexão com as pessoas”, destaca.

“O que interessa, de fato, é a vibração sutil, a resposta que nasce do toque de duas pessoas que se encontram em lugares, mesmo cidades, geograficamente diversos, mas não necessariamente distantes”, diz Olivia, que antecipa vida longa para a instalação. “Até março ela deve percorrer diferentes cidades dos Emirados e, a partir daí, prosseguir firme na sua missão de conectar outros festivais de design ao redor do mundo.”