Prazer de ter

Roberta de Lucca - O Estado de S.Paulo

Após reforma, gourmet faz da cozinha de casa um espaço à altura de seu gosto culinário

O publicitário Carlos Perrone gosta de boa mesa. Tanto que, em uma viagem à Nova York, combinou com a mulher, a decoradora Kátia Perrone, que, em vez de compras, torrariam dólares em restaurantes. "Comíamos bem no almoço e no jantar, foi uma delícia", recorda esse neto de italianos, que ainda hoje sente o gosto do nhoque feito em casa pela avó. Ele também lembra do pai, que adorava cozinhar - de macarronadas às brasileiríssimas peixadas. Perrone sentava num banco na cozinha e observava. "Com ele aprendi a combinar temperos, a escolher carnes, aves e peixes", conta. De tanto ver pai e tios prepararem o cardápio, tomou gosto pela culinária. Mas mergulhou no universo das panelas só no final dos anos 90. "Depois da morte do meu pai (1990), fiquei anos sem cozinhar, até o dia em que um amigo fez acarajé na casa da minha mãe e voltei ao fogão." Casado, as investidas culinárias ganharam maturidade - e Perrone passou a cozinhar para os amigos. "Gosto de comidas tradicionais, como carne ou risoto", diz. Ou boeuf bourguignon, como o preparado para o Casa&. Das viagens pelo mundo, ele sempre trouxe livros de culinária, embora confesse ter lido poucos. Assim como fez poucos cursos de gastronomia, mais para aprender técnicas. "Entendi como ocorrem transformações químicas nos alimentos, que sal é sal... Me tornei sábio nos prazeres da mesa", diverte-se. A sapiência se transformou em exigências que culminaram na reforma da cozinha da casa no Morumbi, em 2007. "Queria um fogão industrial e um espaço onde pudesse conversar enquanto cozinho. Aí pedi para a Kátia pensar na obra", explica. Para acomodar o fogão com forno e 5 bocas (da Berta Industrial, preço sob consulta), o ambiente foi ampliado, roubando metragem da área de serviço. No novo espaço, Kátia posicionou o equipamento de frente para a janela que se abre para a área de refeições, num pequeno jardim. Do lado esquerdo do fogão, uma ilha abriga miniadega climatizada (Maison des Caves, a partir de R$ 3.520). Projeto da Florense, os armários são de rovere com corian no tampo das bancadas - a que fica ao lado da pia apóia o forno elétrico profissional da Engefood (R$ 7 mil)."Ele é ótimo porque assa e solta vapor, deixando os alimentos no ponto certo", diz Perrone. Quando morou na Venezuela (de 1995 a 1997), a maior diversão do casal Perrone era receber amigos para "festas de Babette". "Às terças-feiras, uma confraria masculina se reunia para comer, beber e saborear charutos, e às quintas, um encontro misto discutia o menu do final de semana", conta. Na volta ao Brasil, o hábito só fez aumentar. Não há um fim de semana em que Perrone não cozinhe para amigos - na sua casa ou na deles. Quando a degustação é em endereço alheio, ele leva temperos e acessórios. "Faca bem afiada e boas panelas são fundamentais. Mas perdem a função se não houver, do outro lado, quem gosta de comer bem." Enquanto filosofa, Perrone checa o ponto do boeuf bourguignon. Ali perto, sobre a bancada, está o cheesecake - sobremesa preparada por Enrico, o filho de 10 anos, que já tem um curso de culinária no currículo. "Gosto de fazer doces e bolo de carne. E até preparei um jantar na casa de uma amiga dos meus pais", conta ele, refazendo a história do pai, que olhava o avô cozinhar. Na cozinha renovada, há até um banquinho de madeira para Enrico alcançar o fogão. A paixão por culinária é tamanha que Perrone já trouxe na bagagem de mão uma peça de mussarela, comprada em Nápoles. Sobre viver o roteiro do executivo que se cansa do escritório e abre restaurante, ele não descarta a possibilidade, mas frisa: "Precisa ter apenas de 10 a 15 mesas". Para poder fazer uma comida bem-feita.