Por um novo luxo

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Mostra em Milão sugere que sensação de conforto doméstico se liga hoje à satisfação de necessidades essenciais

Os ritos diários da cultura chinesa serviram de inspiração para o ambiente Shangai 

Os ritos diários da cultura chinesa serviram de inspiração para o ambiente Shangai  Foto: SALÃO DO MOVEL DE MILÃO

Não se deixe levar pela primeira impressão ao contemplar as fotos que ilustram este artigo. Apesar de toda sua exuberância, DeLightFuL, (em livre tradução, Cheia de Luz), uma das mostras que aconteceram no âmbito da 56 ª edição do Salão do Móvel de Milão, no início deste mês, não tinha como objetivo realizar nenhum exercício de futurologia prática aplicada aos ambientes da casa. Mas sim, segundo seus curadores, mostrar o que eles têm de mais essencial.

Tudo, claro, apresentado dentro da melhor tradição milanesa.“Procuramos modelar o espaço em torno de necessidades imutáveis dos seres humanos - comer, ler, sentar, descansar. Trabalhamos com leveza e ironia, jogando com elementos que tradicionalmente constituem os ambientes domésticos, mas sem a preocupação de ser literal”, explica Simone Ciarque, que assinou a montagem em parceria com seu sócio, Miguel Queda, no escritório milanês CQS Ciarmoli Queda. 

“Tomamos como base quatro conceitos-chave: design, luz, futuro e viver. A partir deles concebemos ambientes que reproduzem situações ora reais, ora virtuais, ora um mix das duas. Todos porém sujeitos a mudanças súbitas de uma realidade à outra. Tal como acontece na nossa vida diária”, descreve Queda.

Logo à entrada, por exemplo, três espelhos em formato de animais -um macaco, uma coruja e uma raposa- evocam uma conexão perdida com a natureza. Isso até que, após atravessar um corredor estreito, sugerindo um túnel secreto, o visitante se defrontava com o ponto focal do percurso: uma imponente poltrona branca, que a dupla desenhou especialmente para a mostra em parceria com o ilustre arquiteto português Álvaro Siza. 

“As pedras angulares da casa contemporânea são o design e a luz”, explica Queda, desnudando uma condição pouco sujeita a contestações. Menos ainda em se tratando de uma mostra realizada nas dependências do Salão do Móvel, em ano de Euroluce. Passada porém esta espécie de portal, a representação da casa contemporânea se desdobrava em espaços abertos, sem delimitações, que sugeriam formas de morar cada vez mais fluidas e mutáveis. 

No primeiro deles, uma série de monitores apontavam para um diálogo permanente entre interior e exterior, entre público e privado, sugerindo um espaço doméstico de portas abertas para o mundo. Ao lado deles, vitrines, transparentes e alinhadas, abrigavam, cada uma, um móvel, uma luminária ou um conjunto deles. Sempre sujeitos a variações de intensidade e cor de luz, como a nos lembrar de que na casa de hoje nada é o que parece ser. “Tudo depende do ponto de vista”, pontua Simone. 

Nos demais ambientes, uma atividade comum a várias culturas e épocas, ou seja, o reunir-se em torno de uma mesa, aparecia retratada em três locações bastante inusitadas e antagônicas: Las Vegas, Xangai e Mar Egeu, mas que, em que pesem todas suas diferenças de estilos e características, denotavam, segundo os curadores, uma preocupação comum.

“Objetos de design são, ou ao menos deveriam ser, uma resposta a necessidades vitais. Devem oferecer soluções para demandas ancestrais que continuam na essência de nossas atividades diárias. E isso, onde quer que elas aconteçam”, sugere Queda. 

“Não vejo nada de contraditório em falarmos de um luxo primitivo e de, ao mesmo tempo, propormos um retorno ao essencial. Acreditamos que seja uma função do design promover esta espécie de volta, oferecendo como bônus materiais confortáveis e sedutores”, complementa Simone. Ao que tudo indica, tendo em mente o mais puro design ‘made in Italy’.