Para ele, o morar é híbrido

- O Estado de S.Paulo

O arquiteto e designer Guto Requena cria as mesas Joly, que seguem o conceito de flexibilização do mobiliário

A clássica configuração da casa em área íntima, social e de serviços - típica dos modelos europeus do século 19 - está com os dias contados. Ao menos é o que aponta o arquiteto e designer Guto Requena, de 30 anos. "Se a família mudou, se os hábitos mudaram, seu espaço deve certamente acompanhar tais transformações", escreveu ele em sua dissertação de mestrado no Núcleo de Estudos de Habitares Interativos da Universidade de São Paulo (Nomads.usp).

 

A formação de novos grupos familiares com diferentes perfis não é o único aspecto comportamental a ser levado em conta nessa revolução em curso. O advento da cibercultura, acredita o profissional, traz um convite para o morador não só interagir com o computador e a internet, mas também com sua própria área residencial. Daí decorreria, entre outros fatores, o conceito da flexibilização dos espaços e do mobiliário.

 

Recém-lançadas no mercado por Guto, as mesas Joly parecem atender bem a essa característica dos lares atuais. São duas mesas que, unidas ou separadas, podem assumir funções diversas. "Pensei nelas como apoio para cozinhar, trabalhar e - uma brincadeira - até fazer amor", explica. Para tanto, a peça há que ser resistente, não? "Tanto que coloquei um reforço metálico nos pés dos móveis, porque achei o protótipo inicial muito frágil."

 

O processo de criação empregou um software para fragmentar a estrutura de MDF, revestida com recortes de lâminas de madeira. Como o mobiliário desliza sobre rodízios, fica rápido e prático rearranjar a distribuição.

 

Curioso é que as tais mesas foram criadas, inicialmente, para o próprio apartamento do arquiteto. O local é uma espécie de síntese do "Habitar Híbrido" defendido em tese por ele, que demoliu todas as divisórias do imóvel de 85 m2, na Rua da Consolação.

 

"Levantei apenas duas paredes em L, que compreendem um cubo central, com o bloco molhado, ou seja, cozinha, banheiro e lavanderia", conta. De resto, o espaço é livre e as peças de mobiliário - como as Joly e outras desenhadas pelo dono do pedaço - podem se adaptar a cada ocasião.

 

Quando o rapaz vira DJ em casa, por exemplo, agrupa tudo de tal maneira que haja local de sobra para os convidados dançarem. Por falar em balada, a boate Hot Hot, recém-aberta no centro de São Paulo, tem também projeto do arquiteto e designer, que, irrequieto, prepara uma nova coleção de móveis e luminárias.