Os prós e os contras de morar em um imóvel de planta livre

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Abrir mão de divisórias e distribuir todos os ambientes em um mesmo espaço é assunto que divide opiniões

Apartamento paulistano utilizou conceito de planta aberta para distribuir os cômodos do espaço

Apartamento paulistano utilizou conceito de planta aberta para distribuir os cômodos do espaço Foto: Julia Ribeiro

Não é apenas a cortina de pregas acentuadas que isola o dormitório nos raros momentos que a privacidade se faz necessária. Ou a iluminação pontual e dramática, realçada pelas paredes cinza chumbo. Para onde quer que se olhe, existe sempre algo de cenográfico associado à decoração deste apartamento de 75m², localizado no bairro da Bela Vista, na região do baixo Augusta, em São Paulo.

“O casal de proprietários foi realmente exigente. Desde o início, deixaram claro que queriam um apartamento que chamasse a atenção, que provocasse um efeito ‘uau’, em quem o adentrasse pela primeira vez”, descreve a designer de interiores Karina Salgado, do escritório Two Design, que contou com a assessoria da arquiteta Vivian Del Col no projeto de interiores. 

Da concepção à entrega foram exatos quatro meses: um de projeto, três de obras. “O prédio parte de um conceito ‘open space’, oferecendo unidades residenciais sem divisórias, com exceção da área do banheiro. Além disso, traz grafites nos elevadores, áreas sociais despojadas, enfim, não havia como fugir desta pegada jovem e informal”, complementa Vivian.

Exemplo acabado de uma decoração aberta a descobertas, a cama posicionada na diagonal, abrindo mão da tradicional distribuição no meio do ambiente, tem sido um dos itens mais elogiados do apartamento. Tanto por seus moradores, quanto por seus muitos visitantes.

Para quem não abre mão de privacidade, a planta aberta pode não ser a solução mais vantajosa. No caso dos meus clientes porém, caiu como uma luva”, afirma Karina, evidenciando uma condição sempre aberta a discussões. “De uma coisa estou certa: integrando todos os espaços de forma inteligente, o apartamento acaba fatalmente aparentando ser maior do que realmente é”, diz.

Quem gosta de receber com frequência em geral não tem do que se queixar. “Com a cozinha integrada à sala, o antes e o depois de cada refeição viram uma programação a mais, não uma função. Por ser todo aberto, o espaço é ideal para sediar festas, coisa aliás que meus clientes adoram fazer”, conta a arquiteta, que não poupou esforços no sentido de ampliar ao máximo a área disponível.

 

Para dotar o apartamento de um ambiente a mais, a varanda foi fechada e é ocupada hoje pela sala de jantar. Além disso, no lugar de paredes fixas, os ambientes são separados apenas por elementos decorativos, tais como estantes vazadas e uma cortina com bom caimento que cumprem o papel de delimitar, mas sem romper com a sensação de integração.

Abrir mão de um forro de gesso, por sua vez, liberando o pé-direito original, foi outro recurso adotado, mas exigiu reforço extra na iluminação. “Como deixamos a laje aparente, tivemos de distribuir trilhos com spots por todo o apartamento e dotar alguns pontos específicos de luminárias avulsas. Tanto de piso quanto de mesa”, explica Vivian.

Moderno por natureza, o concreto aparente, elemento que unifica o teto do apartamento, inspirou as arquitetas na definição da cartela de cores. “O cinza é indissociável do imóvel. Por isso resolvemos combiná-lo a tons sóbrios como o preto e o branco, pincelando, aqui e ali, por tonalidades vibrantes como o laranja e o azul”, conta a arquiteta.

Reinando soberana, a cor aparece ainda em diversos momentos da decoração. No living e no quarto, por meio do piso de cimento queimado e ainda de um papel de parede, acima de qualquer suspeita, mas que é feito, de fato, de linho. E, finalmente, na cozinha onde uma superfície revestida com ladrilhos hidráulicos empresta uma inegável atmosfera de nostalgia à composição. Mesmo em meio a tantas modernidades.

Quer escolher um imóvel de planta livre? Confira o que levar em consideração:

PRÓS:

Utilização plena do espaço: decorar uma planta livre pode ser uma solução muito boa, principalmente em casas ou apartamentos pequenos. A ausência de divisórias pode ampliar, e muito, as áreas de circulação e de armazenagem

Iluminação e ventilação: trata-se, sem dúvida, de dois dos itens mais beneficiados pela ausência de divisórias internas. Em poucas situações, a ventilação cruzada se faz sentir com tamanha intensidade. Assim como todas as nuances da luz solar ao longo do dia

Custos: do ponto de vista construtivo, a planta aberta pode baratear a obra. Na ponta do lápis, os gastos poupados com a eliminação de divisórias e portas, especialmente com metais e ferragens, podem realmente surpreender

Simplificação: a tarefa de decorar fica facilitada quando acontece em um único espaço ao invés de em vários ambientes separados. Não é preciso optar por diversas cores ou estilos diferente para cada quarto

CONTRAS:

Moradores: uma planta aberta pode ser a solução mais adequada para abrigar solteiros e casais jovens sem filhos. À medida que a família cresce porém pode deixar de ser uma opção atraente

Atenção aos detalhes: é preciso se ter em mente que em um espaço aberto, eles ficam todos ainda mais ressaltados. Logo, é aconselhável prever gastos adicionais, investir e caprichar na decoração, sobretudo nos acabamentos, que fazem a diferença.

Privacidade: como já citado, a planta livre pode não ser a ideal para abrigar uma família com filhos crescidos. No entanto, solteiros também recebem visitas e é bom levar isso em conta. Ainda mais se não houver tanta intimidade assim entre o morador e seus eventuais visitantes

Conforto ambiental: sim, tudo o que acontecer em um ambiente será fatalmente ouvido em qualquer outro lugar da casa. O mesmo valendo para eventuais odores ou mesmo perfumes