Os novos românticos

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Feira aponta para uma abordagem mais descompromissada da decoração e do design

Houve um tempo, não muito distante, no qual a simples ideia de se decorar à francesa já sugeria ambientes requintados, montados, em geral, em torno de um eixo central, com móveis e revestimentos coordenados, e tendo como base uma palheta de cores sóbria e delicada, composta sobretudo pelo branco, bege e marrom, aqui e ali, realçados pelo dourado.

Entre os dias 7 e 11 de setembro, em Paris, a feira Maison & Objet apresentou as principais novidades do design francês. Nós separamos as principais novidades e o que de melhor apareceu por lá

Entre os dias 7 e 11 de setembro, em Paris, a feira Maison & Objet apresentou as principais novidades do design francês. Nós separamos as principais novidades e o que de melhor apareceu por lá Foto: Divulgação/ENOstudio

Vitrine maior do que se convencionou chamar de estilo francês, nas suas mais variadas expressões – móveis, acessórios, têxteis, utilitários e até perfumes –, a última edição da Maison & Objet, feira âncora da Semana de Design de Paris, atesta que em se tratando de decoração, a escola francesa está mais viva do que nunca. Até porque vem sendo reciclada por toda uma geração de novos profissionais.

“Sempre me empenhei em criar narrações em torno dos objetos que desenho. Gosto da ideia de que eles possam nos transportar para além de nossa realidade, mesmo em se tratando dos utilitários mais simples”, declara Sam Baron, que assina o espelho Prego, um dos objetos selecionados para compor a coleção comemorativa dos dez anos de atividades do ENOstudio: um dos principais escritórios de criação em atividade na capital francesa.

“Desenhei uma peça que, como um quadro, pode ser pendurada de diversas formas na parede, gerando diferentes configurações”, prossegue Baron, sintonizado com a atmosfera descompromissada e curiosa da série comemorativa, que além de Prego, conta ainda com outro modelo de espelho, o Dorne: uma criação de Goliath Dyèvre, que incorpora uma pequena prateleira ao desenho do objeto.

Assim como eles, vestígios da tradição francesa ligada ao desenho de objetos se fazem presentes também em quase todas as demais peças da coleção: no lustre “oversized”, feito de lâminas de madeira, criado por Matalie Craset. No castiçal Factory, de Ionna Vautrin, no qual o desenho do objeto acaba sendo definido por suas velas, ou ainda no móvel mais inesperado da série, o banco Vega, do Número 11.

Uma peça que se não chega a surpreender por seu aspecto ornamental – ainda mais em se tratando do país que praticamente inventou as molduras decorativas, as cortinas em camadas e os corrimões dourados e sinuosos –, destoa um pouco da leveza predominante na maior parte da coleção. Mas isso, apenas na sua aparência, que incorpora o veludo e o metal dourado à sua composição.

“Imaginamos um pufe com um design acolhedor e alegre. Nada mais que uma forma simples e redonda que pudesse ficar à disposição das pessoas”, conta Grégory Peyrache, que ao lado de Sophie Françon e Jennifer Julien, procuram sempre atrelar o desenho de seus móveis aos espaços que eles vão habitar, sem nunca abrir mão de um olhar mais contemporâneo para a arquitetura de interiores.

“Para os dez anos do ENOstudio queríamos conceber um objeto que fizesse diferença no ambiente, mas que fosse igualmente útil”, comenta Sophie, em plena sintonia com a novíssima geração dos designers de interiores franceses, para quem a busca pela autenticidade na decoração dos interiores tem se revelado uma preocupação comum. 

Além do tema do conforto, que hoje assume o protagonismo nos espaços domésticos – a ponto de inspirar uma mostra que aconteceu no âmbito da feira parisiense –, nos novos interiores saem de cena o excesso de coordenação e a busca a qualquer custo pela simetria. A ordem e o rigor tradicionais, por sua vez, parecem cada vez mais aborrecidos. 

O new look que emana de Paris, tudo parece válido para romper a monotonia e de alguma forma “desequilibrar” a decoração. Mesmo soluções improvisadas, que incorporem algum defeito aos ambientes. Seja ele um móvel velho ou uma parede descascada. “Ganha força o ar de vivido, usado, imperfeito. E isso não pode ser mais francês”, conclui Jennifer.