O reino vegetal como ele é

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O novo design reproduz a natureza em seu estado selvagem. Com a ajuda da tecnologia moderna

Desenhos inspirados no mundo vegetal não são exatamente uma novidade nos domínios do design. Por todo o século 20, das cadeiras de metal inglesas, passando pelo universo estilizado do art nouveau e pelas não poucas incursões orgânicas da década de 50, árvores e arbustos, flores e galhos jamais deixaram de emprestar suas formas ao desenho dos móveis.

 

Mais afeitos a reproduzir em suas peças um sentido de ordem e harmonia no reino vegetal, aos designers de então, em nome da elegância, qualquer simplificação parecia sempre bem-vinda. Nenhuma menção à estruturação, por vezes caótica, de ramos, troncos e galhos, nem ao desenho assimétrico e irregular de folhas e pétalas.

 

Não deixa de causar espanto que, apenas agora, passada uma década do século 21, tal repertório formal volte a ser olhado com atenção pelos criadores. E, mais que isso, que este atual interesse pela natureza tenha como foco não mais o que ela tem de regular e controlável, mas justamente seus padrões mais intricados e descontínuos. Suas estruturas primitivas.

 

"Percebi que, diante dele, a primeira questão que se colocava era como era feito. Só depois qual seria sua relação com o espaço", conta a arquiteta Fernanda Marques, autora de Tronco, banco de espuma que reproduz os veios de uma árvore, por meio de impressão digital. "Eles têm uma unidade de forma, mas ao mesmo tempo são toscos, selvagens até. Produzem ruído. Acho que esta aí a razão do sucesso", acredita ela.

 

Intrigar por sua complexidade – e assim ajudar a reduzir a ameaça cada vez mais presente de cópias – parece ser a senha para a nova geração de designers que volta seus olhos para o apetitoso caos oferecido pelo orgânico. Afinal, como ficar indiferente às cascatas de flores propostas por Ferruccio Laviani, em Bloom, da Kartell? Ou ainda ao emaranhado de fios que servem de base para as mesas Mangue, projetadas por Wagner Archela, de corian? "Nosso objetivo era construir uma cadeira que brotasse como uma planta, com ramos curvos para formar o assento e o encosto", diz Erwan Bouroullec, autor, em parceria com o irmão Ronan, da Vegetal Chair, atual best seller da Vitra.

 

O maior desafio do projeto, segundo os designers, foi respeitar a geometria da cadeira e, ao mesmo tempo, reproduzir o sistema de ramificação de modo espontâneo. Para contornar as exigências de produção, transformar os galhos em tiras – em vez de cordões, como acontece na Ad Hoc Chair, de Jean-Marie Massaud, para a Viccarbe – foi a solução encontrada para conferir melhor qualidade estrutural ao móvel.

 

Moldagem por injeção

 

Repetição e arbitrariedade de composição. Um conjunto caótico de componentes, montados à mão, em uma geometria flexível, dando origem a divisórias sem linhas verticais ou horizontais. Sem densidade ou tamanho definidos. Assim é Algues, sistema desenvolvido para a Vitra em 2004, que marca o primeiro contato dos irmãos Bouroullec com a técnica da moldagem por injeção, o mesmo processo empregado hoje na fabricação da Vegetal Chair.

 

De fato, traduzir toda a complexidade da natureza no formato de móveis seria algo impensável sem a sofisticação oferecida pela tecnologia moderna – softwares avançados, cortes a laser, técnicas de impressão digital. É, aliás, da associação entre esses dois universos que parecem emergir os momentos mais inspirados dessa produção.

 

"A ideia que orienta a série Amazonas surgiu no momento de um sobrevoo sobre a floresta. Percebi que diferentes camadas vegetais se sobrepunham umas às outras, e também lateralmente. Minha tarefa foi transformar o conceito em um sistema integrado de mesas", afirma o designer sueco Eero Koivisto, um dos autores da brasileiríssima série para a marca sueca Offecct. marcelo.lima.antena@estadao.com.br

 

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