O poder que a imagem guarda

marcelo.lima.antena@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Em Milão, Gaetano Pesce criticou o uso de abstrações geométricas e lançou coleção inusitada de móveis

Uma curiosidade nata. Um desejo permanente de ir além do conhecido, pelo simples prazer da descoberta. Talvez seja essa a característica que melhor distingue o verdadeiro artista daquele que faz da arte apenas uma profissão. Com o design, não é muito diferente. Por definição, mais ocupados com a funcionalidade - e com as planilhas de custos -, poucos são os profissionais que ousam se aventurar em nadar contra a corrente. E entre essa minoria, seguramente, está o italiano Gaetano Pesce.

Nascido em La Spezia, em 1939, Pesce estudou arquitetura em Veneza. Viveu em diversas cidades da Europa, como Londres e Paris, mas, desde os anos 80, estabeleceu-se em Nova York, onde mantém seu escritório de arquitetura, design e criação. Para ele, a "energia" que o seduziu desde que aportou na cidade pela primeira vez continua por lá. "Provavelmente por não ter para onde ir", brinca o designer, ironizando o atual cenário de crise.

Aclamado pela crítica especializada, seu trabalho multidisciplinar encontrou plena acolhida em coleções particulares e em museus de todo o mundo. Condição, por certo, não experimentada, ao menos com a mesma intensidade, no contexto do grande mercado. Com a provável exceção de sua poltrona Donna, criação de 1969, hoje um best-seller que acaba de ganhar uma versão prata da marca B&B Italia, comemorativa de seus 40 anos a evocar a figura feminina.

Afinado com seu tempo, Pesce aponta a pesquisa e o domínio de novos materiais e tecnologias como seus mais poderosos estímulos. Caso da resina de poliuretano, que, empregada a partir de técnica desenvolvida pelo escritório do arquiteto, libertou o produto de plástico das suas condições convencionais de uniformidade, luminosidade e texturas. Com a vantagem de que, aplicado ainda em estado líquido na produção de móveis, luminária e até em joias, ele sempre acaba por se apresentar de forma imprevisível.

CONTRA A UNIFORMIZAÇÃO

"Meu trabalho fala da vida, das emoções humanas. E nem sempre elas são belas e sedutoras", explicou o designer, em entrevista exclusiva ao Casa&, em São Paulo. Em pauta, assuntos tão variados quanto a questão do feminino ligada à sua produção de arquitetura, seus futuros projetos e sua principais preocupações. "Creio que a perda de individualidade é o maior dos problemas contemporâneos. É muito difícil ser você mesmo em um mundo que tende para a uniformização", afirma o designer italiano.

Particular a seu universo criativo, o questionamento permanente se fez presente, mais uma vez, na última Semana de Design de Milão, realizada de 22 a 27 de abril, quando, diante de uma plateia ávida por respostas, por caminhos capazes de reposicionar o móvel diante de um mercado em turbulência, Gaetano Pesce acenou com provocação e exuberância, apresentando, muito provavelmente, os mais ousados móveis lançados por uma grande empresa em todo o Salão do Móvel.

"Acredito que a imagem é o meio de expressão mais apropriado para nossa época. Custo a admitir, porém, que os designers e arquitetos não estejam conscientes desse enorme potencial e continuem insistindo em se expressar por meio de abstrações geométricas", declara ele, solenemente, em manifesto no jornal Corriere della Sera que acompanhou o lançamento de seus produtos: os sofás Montana e Colorado, além da série de estofados Gli Amici, feita para a marca Meritalia.

Uma coleção, para se dizer o mínimo, bastante inusitada, mas que nem por um momento chega a rivalizar em exotismo com sua proposta de coifa gourmet para a empresa italiana de eletrodomésticos Elica: projeto no qual o designer desfruta, em altas doses, daquilo que sua terra natal, em suas próprias palavras, lhe deu de melhor: a criatividade. "É o único recurso natural à disposição de nós, italianos." E alguém ainda discute?