Nesta casa, tudo está à venda

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Casal habita imóvel histórico repleto de móveis assinados

Living com bancos de Lina Bi Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki; sofá em ferro, de Rino Levi; e mesas Forma, de Carlo Hauner e Martin Eisler

Living com bancos de Lina Bi Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki; sofá em ferro, de Rino Levi; e mesas Forma, de Carlo Hauner e Martin Eisler Foto: Zeca Wittner/Estadão

O casal Vivian Lobato, jornalista e André Visockis, designer gráfico, está junto há oito anos e há seis sob o mesmo teto. Gostam e, até por razões profissionais, recebem muito; mas, na maioria das vezes que convidam alguém para uma visita, a resposta vem acompanhada de um certo ar de estranhamento.

Mas o apartamento 61 fica numa casa? É a pergunta que mais se ouve de quem ainda não conhece, nem a eles, nem a essa casa elegante térrea, de 520 m², onde o casal vive e trabalha no Jardim Paulistano. Um imóvel com ares art déco, que, traz duas assinaturas ilustres: a do escultor Victor Brecheret, autor de seu projeto e a do arquiteto Rino Levi, que conduziu sua última reforma estrutural, na década de 1960.

“Nossa história começou em um apartamento de número 61, em Pinheiros. Foi nossa primeira experiência morando juntos e não tínhamos nada de mobiliário. Para decorá-lo, passávamos finais de semana inteiros pesquisando e garimpando peças, e foi assim que nos descobrimos apaixonados por móveis vintage”, conta Vivian.

Desde então, segundo eles, tudo se deu de forma natural. “Comprávamos mais que o necessário, trocávamos os móveis quando achávamos algo mais interessante, os amigos começarem a pedir ajuda na hora de comprar e pronto. Logo nos vimos frente a um promissor negócio”, afirma Visockis.

A princípio, em 2014, em uma loja on-line, até que a necessidade de receber os clientes e aumentar do volume de vendas, fez com que o casal procurasse um ponto físico, onde fosse possível conciliar a rotina da vida doméstica com o funcionamento de um showroom.

“Achamos essa casa no ano passado. Em função dela até pensamos em mudar o nome do nosso negócio, mas como fomos muito felizes no Apartamento 61, e ele foi, de certa forma, nossa inspiração, decidimos por não trocar. Em geral as pessoas adoram. É um bom quebra gelo para começar um papo”, brinca Vivian.

Ao contrário de uma residência convencional porém, tudo nela está à venda. Com exceção de uma estante projetada por Rino Levi que funciona como divisória entre as salas. “Por vezes é um pouco trabalhoso. Vender algo que era peça chave de um ambiente, mudar tudo de lugar. Mas é super libertador. Parece que tudo flui, não fica uma energia parada”.

Como acervo, o forte da casa é o mobiliário moderno brasileiro da década de 50 até o final dos anos 70, bem representado em peças de Jorge Zalszupin, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues, Carlo Hauner e Martin Eisler, José Zanine Caldas, Jean Gillon e Giuseppe Scapinelli. Entre os contemporâneos, a Apartamento 61 trabalha com Bianca Barbato, Ricardo Graham, oEbanista.

Em sua estreia na próxima edição da SP-Arte o casal planeja levar ao prédio da Bienal grandes nomes do design como a dupla Carlo Hauner e Martin Eisler e Lina Bo Bardi, além de peças exclusivas.

Quanto à função moradia da casa, propriamente dita, o casal é só elogios. “A planta é simples, mas ela é muito integrada e contamos com uma boa área externa. Não é aquele tipo de construção que fica apertada no terreno. Tem uma dimensão humana bacana e, por possuir ambientes muito integrados, continua atual”, pontua o designer.

Logo na entrada ficam as duas suítes, o hall de entrada, a sala de estar para dois ambientes e sala de jantar. A varanda se abre diretamente para o jardim dos fundos, onde existe uma edícula outrora ocupada como o ateliê pelo escultor Victor Brecheret. Além disso, ela tem uma cozinha bem espaçosa e uma área de serviço com dependência de empregada.

A única restrição - se é que existe alguma, segundo eles - diz respeito às constantes manutenções, já que a última reforma, conduzida por Rino Levi, aconteceu há mais de meio século. “Você imagina o que é uma parede com 80 anos?”, brinca Vivian. “São marcas, infiltrações, rachaduras. Nada porém que não possa ser contornado", garante ela.