Designer japonês conquista Milão

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Com criações de uma simplicidade ímpar, Nendo brilha na capital do design; confira suas novas peças

O designer Oki Sato, do estúdio Nendo.

O designer Oki Sato, do estúdio Nendo. Foto: Akiro Yoshida

Se fosse apenas a capacidade de evidenciar o simples, dando forma a objetos que de tão óbvios — e necessários — chegam a surpreender por nunca terem sido criados, já estaria justificada a notoriedade alcançada pelo designer japonês, radicado no Canadá, Oki Sato, do estúdio Nendo. Some-se a isso o frescor que ele costuma imprimir às suas criações e o resultado não poderia mesoa ser outro.

Haja vista o sucesso alcançado por ele e por sua marca na última Semana de Design de Milão, o grande palco cênico do segmento, onde, com toda a discrição que lhe é peculiar, o designer reinou soberano. Não só com lançamentos de peso em nada menos do que dez empresas italianas do primeiro time. Mas ainda com uma mostra pensada em todos os detalhes para encher os olhos e aguçar os sentidos.

“Nós tendemos a perceber a existência e o posicionamento dos objetos seguindo contornos e também a distinguir o dentro e o fora a partir deles”, explica Sato no catálogo de abertura de Invisible Outlines, ou Contornos Invisíveis. Exposição que ocupou integralmente os três andares da loja do estilista Jill Sander no centro de Milão, gerando durante a semana de design milanesa, filas de espera de quase 1 quilômetro nos horários de pico.

Reunidas em torno do tema, 16 coleções do designer estavam representadas, ou por vezes apenas insinuadas, dentro de um cenário quase que integralmente branco, por entre o qual, ele se propunha a manipular os contornos de suas criações das maneiras mais inesperadas. Ora realçando-os pela luz, ora traçando linhas apenas percebidas pelos sentidos, mas nem sempre presentes no desenho dos móveis e objetos convencionais.

Caso, por exemplo da coleção de armários desenvolvida para a mostra Collective Design que aconteceu em Nova York em maio do ano passado. “Dentro do espaço onde vivemos, há itens que se movem em meio às nossas atividades diárias. Portas de armários, por exemplo. Embora não visíveis, estamos, ao menos inconscientemente, conscientes dos traços deixados por esses movimentos”, explica.

“Assim, tudo se resumiu a dar uma existência física a esses ‘rastros’ produzidos pela abertura e fechamento das portas, que passaram a existir por meio de tiras de metal”, conta o designer, que em outros momentos se preocupou em tornar visíveis os contornos de suas criações pela simples contraposição de superfícies brancas e pretas. Como na apresentação do vaso Lean e da mesa Ballerina, da Marsotto Edizioni. Ou ainda da série Gaku, para a Flos.

Objetos que funcionam como luminária e acessório decorativo, nos quais uma lâmpada pendente pode circular dentro de uma moldura, sendo carregada por contato. Dessa forma, ela pode se deslocar pela superfície até onde a iluminação seja necessária. Tarefa facilitada ainda mais graças a um ímã que permite seu posicionamento em ângulo, possibilitando a regulagem da direção a iluminar.

Também por meio de ímãs, potes, vasos de plantas, espelhos e outros acessórios podem ser incorporados ao conjunto e mantidos firmemente no lugar, sem a necessidade de uma grande área de contato. “A ideia foi oferecer ao usuário além de uma luminária, uma espécie de quarto em miniatura para ele reorganizar do jeito que desejar e se divertir um pouco”, diz.

Como acontece em Gaku, não são poucos os momentos em que Sato se deixa levar por uma postura menos conceitual e se abre para o lúdico. Para a Cappellini, por exemplo, suas mesas laterais com iluminação embutida se assemelham mais a tendas indígenas. “Procurei colocar ao alcance das mãos do usuário um tipo de esconderijo. Um local onde ele pudesse esconder — ou dispor — seus itens mais secretos”.

Dentro do mesmo enfoque, ao ser convidado pela Kartell para fazer uma releitura do célebre Componibili, armário cilíndrico desenhado por Ana Castelli, que acaba de completar 50 anos, Sato partiu para uma abordagem nada convencional. Em especial em se tratando de um ícone do design.

“Trata-se de uma peça que se encaixa naturalmente em vários tipos de interiores. Sendo assim, vários artigos são comumente reunidos a seu redor. Como raramente ele é visto por conta própria, resolvi explorar esses objetos, os reunindo à sua volta. Mas todos com os mesmos detalhes das portas dos componíveis. Como em uma grande família”, conclui.