Natureza da forma

- O Estado de S.Paulo

Suculentas são espécies personalíssimas e não dão trabalho: querem muita luz e pouca água

A textura da ‘Echeveria perle von nurnberg’, em arranjo montado pela paisagista Célia Alves

 

Para ficar em sua melhor forma, elas precisam estar gordinhas. Com sua textura e aspecto escultórico, as plantas suculentas emprestam personalidade aos ambientes e - o melhor - sem dar muito trabalho. Precisam, basicamente, de muita luz e pouca água. Características que garantem a elas uma legião de fãs. Só no Estado de São Paulo, estima-se que sejam vendidos de 400 a 500 tipos de suculentas e cactos, parceiros constantes das gordinhas nos arranjos - não só combinam esteticamente como têm o modo de cultivo parecido.

 

Colecionadores se desdobram para aprender as características de cada planta, e a internet é um bom lugar para isso. A numeróloga Eliane Monteiro de Barros Grandis ainda se considera iniciante do assunto. Conheceu as suculentas no inverno passado, em Campos do Jordão. Ficou encantada com as plantinhas e levou algumas para casa. Não parou mais - chegou a ter 40 espécies. "Você compra uma e logo quer outra", afirma. Mas comprando um vasinho atrás do outro perdeu muitas delas até aprender o que ia bem em seu apartamento sem varanda no Ipiranga - suculentas são naturais de lugares com clima desértico, terrenos áridos, onde recebem muita luz do sol e a água é escassa.

 

"Percebi que as echeverias não servem para minha casa, porque precisam de sol direto." A saída foi se especializar em haworthias e gasterias, que sobrevivem bem na sombra. Cada um desses gêneros tem muitas espécies, então Eliane pode ter um jardim variado, que dispôs sobre uma antiga máquina de costura, agora em lugar de destaque na sala.

 

"Achava que era mais fácil cuidar das suculentas, mas não é bem assim", admite. Muito do que Eliane sabe sobre os cuidados com sua coleção aprendeu nos fóruns da comunidade ‘Cactos e Suculentas para Todos’, do Orkut, que, criada há cinco anos, reúne mais de 5 mil aficionados. Entre os tópicos mais comentados está o que trata do substrato - a melhor terra para que a planta cresça bem e, em alguns casos, floresça.

 

Cada colecionador tem uma fórmula que considera ideal. Para o criador da comunidade, Marcelo Cavalcanti Cruz, o correto é, em um vaso de barro, forrar o fundo com argila expandida, colocar uma manta para drenagem e, finalmente, uma mistura com 2/5 de terra, 2/5 de pedriscos e 1/5 de húmus. Outros optam por uma forração de pedriscos (que podem ser substituídos por cacos de telha ou tijolo) e uma mistura de terra, casca de pínus com carvão e húmus de minhoca, como o estilista Sergio David, colecionador há 20 anos que, há 2, vende em um site as suculentas que cultiva no bairro de Perus.

 

Independentemente da receita, o importante é que a terra não fique encharcada - a água tem de passar por ela. E pratinhos embaixo do vaso são proibidos - eles mantêm a terra úmida, favorecendo o apodrecimento das raízes.

 

Célia Alves montou um quadro com suculentas tendo um prato de plástico como base (foto acima). O esfagno (musgo) ajudou a dar sustentação. Na parte superior, ‘Sanseveria trifasciata’

 

Experts. Outros grupos de discussão na internet reúnem aficionados, como o da Sociedade Brasileira de Cactos e Suculentas, que tem cerca de mil participantes, segundo o moderador, Juarez Fernandes Machado. Ali as perguntas são mais técnicas e a maioria dos integrantes, como em outras comunidades, não tem formação específica em botânica nem trabalha com isso. Ele próprio é engenheiro mecânico, o que não o impediu de se tornar um expert, sobretudo em euphorbias. Em sua casa, no Rio, há uma estufa com 1.500 plantas. "Não é das maiores coleções; tem gente que tem muito mais", avisa.

 

Na rede ele faz contato com colecionadores de todo o Brasil para trocar informações ou buscar uma espécie que não tenha. Assim conheceu o holandês Gerardus Olsthoorn, que há 28 anos se instalou em Holambra, onde se especializou no cultivo de cactos e suculentas. De suas estufas saem cerca de 300 espécies dessas plantas, que são distribuídas pela cooperativa de produtores para vários Estados.Mas em sua coleção particular há 1.000 espécies.

 

Considerado o principal produtor em São Paulo,ele diz que esse é um nicho ainda pequeno. "Pelo número de espécies, a produção é pulverizada.Há oito ou nove produtores especializados no Estado", afirma. Eles colocam no mercado entre 400 e 500 espécies de cactos e suculentas,com os tipos variando conforme a época. Assim, vale apena ir à Ceagesp em períodos alternados buscar novidades.

 

Lá se comprova outra vantagem das suculentas: elas custam menos que outras plantas e, seguindo as regras básicas, duram mais. Para a arquiteta Suzana Galvão, dona da empresa de decoração de eventos Bothanica Paulista, o custo-benefício compensa. "Como são escultóricas, valem por um arranjo."

 

O paisagista Gilberto Elkis gosta de usá-las no jardim perto de pedras ou combinadas a cactos e agaves.Em vasos,também faz composições com tipos diferentes, o que é uma boa ideia: montar mix de suculentas fica bonito e as plantas se dão bem juntas.

 

Suzana,que já fez buquê de noiva com suculentas e flores brancas, lembra, no entanto, que elas não são para todos os gostos, não só por sua aparência exótica."O popularesco diz que cacto dá azar por que acumula água, retém energia, mas, para mim, não fez mal nenhum", afirma o colecionador Marcelo Cruz.

 

PARA CUIDAR DAS SUCULENTAS

 

Luz

A regra geral é que as suculentas recebam muito luz e pouca água. Em apartamento, os vasos devem ficar preferencialmente perto das janelas. Plantas que precisam de mais sol e são postas à sombra perdem a aparência gordinha, característica das suculentas, ficam esticadas e podem morrer. No sol, além de ficarem mais compactas, podem ter variação na cor.

 

Estufa

Plantas de estufa não devem ser levadas diretamente ao sol. Para não queimar, e morrer, precisam passar por um período de adaptação, de cerca de duas semanas, em que vão sendo progressivamente expostas ao sol até que possam ser deixadas no local definitivo.

 

Água

A irrigação depende de fatores como o tamanho do vaso (e se ele é de barro ou de plástico), o tempo a que a planta fica exposta ao sol e o tipo da suculenta. Produtores aconselham rega a cada 15 dias no verão e a cada três semanas no inverno. Muito importante: a terra não pode ficar encharcada, a água tem de passar por ela.

 

Folhas novas

Nas plantas do gênero Echeveria, que têm forma de flor, é natural que as folhas de baixo sequem, pois a renovação ocorre pelo topo. Uma camada de pedriscos sobre a terra impede que as folhas tenham contato com a umidade e apodreçam.

 

Adubação

Produtores e colecionadores recomendam adubação pelo menos uma vez por mês com adubo químico líquido, com micronutrientes - menos no inverno, quando as plantas estão em período de dormência.