Meu olhar

Orlando Facioli - O Estado de S.Paulo

A exposição A ópera da lua, dos grafiteiros Osgemeos, segundo o designer gráfico paulista Orlando Facioli

Vista da exposição no Galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda

Vista da exposição no Galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda Foto: Dario Oliveira

A experiência de visitar a exposição d’Osgemeos começa pela procura do próprio local onde ela acontece. Em meio a tantas casas antigas e galpões desativados, me deparei com uma rua deserta: a sensação é de se ter errado o endereço, de tão pouco provável que o lugar parece para abrigar uma mostra de arte. No entanto é lá mesmo: Rua Holland James, 71, Barra Funda.

Isso só torna a exposição ainda mais interessante, pois reforça a imersão no mundo fantástico da dupla. É como se eu tivesse entrado em uma outra dimensão. De repente, me vi rodeado, 360º, por cores, texturas, padronagens diversas, em um turbilhão delirante, que se transfigura em um banquete para os olhos.

São muitas as obras sobrepostas umas às outras, unidas por portas antigas, espelhos e adereços – como em uma grande colagem. Fiquei rodando por algum tempo aquela sala gigante, maravilhado, me sentindo a própria Dorothy, de Oz, bem no centro do tornado. Num olhar mais atento, os personagens algo solitários d’Osgemeos se contrapõem à alegria exuberante de suas cores.

A sensação é de pura poesia e sonho. Personagens isolados em sua solidão, imersos em seus mundos particulares. Um mais curioso e interessante que o outro. São cenas tão improváveis ao consciente que é impossível não traçar um paralelo com os surrealistas. Os mais detalhistas podem ficar horas dentro dessa sala, tal a riqueza de alegorias e de imaginação d’Osgemeos.

Um dos cenários criados pela dupla Osgemeos, no Galpão Fortes Vilaça,na Barra Funda

Um dos cenários criados pela dupla Osgemeos, no Galpão Fortes Vilaça,na Barra Funda Foto: Eduardo Ortega / divulgação

Depois, atravessando uma cortina preta, me aventurei no segundo momento da exposição. Uma sala escura rodeada por um mar de sonhos que abriga um personagem gigante. Ao fundo, a lua. Complementando com maestria a experiência teatral dessa obra, música na medida exata. Andei de um lado para o outro curtindo os detalhes de cada ângulo. Às vezes mais de uma vez.

Gigante, a imensa escultura abre o peito, de onde inesperadamente um personagem nu salta fazendo em piruetas. É um tanto estranho escrever o que acontece, mas é absolutamente apaixonante estar nesta sala. A instalação transpira poesia. De tempos em tempos, uma engenhoca mecânica liberta o personagem e, com um pouco de sorte, você vai presenciar a cena.

Ao sair dessa sala você ainda passa por duas instalações: “Retrato com o Paminondas”, em que os artistas evocam a origem rural de seus personagens, e “Por onde ela passou”, que traz uma casinha cheia de objetos, memórias, lembranças, além de uma tela de LEDs, que ocupa quase uma parede inteira com projeções psicodélicas, algo como um sertão eletrônico.

É tudo curioso, imaginativo e interessante. Uma exposição que pode ser bem apreciada tanto por adultos quanto por crianças. Osgemeos em A ópera da lua encantam e inspiram qualquer visitante com uma deliciosa experiência de poesia tridimensional. Ou, em uma só palavra, arte, em sua mais pura forma. Imperdível.

Os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, que foram a dupla Osgemeos

Os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, que foram a dupla Osgemeos Foto: Iara Morselli/Estadão

Osgemeos - A ópera da lua

Galpão Fortes Vilaça

Rua Holland James, 71, Barra Funda