Luxo que vem do mar

- O Estado de S.Paulo

Belas e sedutoras, conchas sempre desafiaram artistas e artesãos a capturar suas formas de maneira criativa

Pequenas obras de arte da natureza, as conchas, por suas diferentes formas, coloração e texturas, nunca deixaram de atrair, intrigar e se transformar em objetos de sedução. Afinal é de dentro delas que surge a pérola, essa delicada criatura que há tanto tempo enfeita e encanta.

 

E quem nunca se sentiu tentado, passeando na praia, adultos e crianças, por sair catando conchas? Em seu livro Presente do Mar, de 1955, Anne Morrow Lindberg não esconde sua velha tentação: "Isto é apenas o início. Há mais praias a serem exploradas. Há mais conchas para encontrar".

 

Nos oceanos Índico e Pacífico haverá delas em forma de cone e estampadas com pintas pretas sobre fundo branco, com manchas brancas sobre fundo preto, ou amarelas com marrom, listradas e estriadas. As salpicadas de coral nascem nas águas das Ilhas Galápagos. As que lembram a tartaruga são raras e se escondem no Mar Vermelho. As verdinho claro, lindas, nas Bermudas. Dentro e fora, múltiplas texturas e cores.

 

Desde os tempos mais remotos, artistas e artesãos não só as usam como material de trabalho como tentam capturar suas formas de maneira original, tanto no universo das artes plásticas, na decoração, na moda e na arquitetura. Aliás, foi na forma orgânica espiralada de uma concha que Frank Lloyd Wright se baseou para conceber o projeto do Museu Guggenheim em Nova York.

 

Nas artes decorativas, não só a forma da concha sempre foi um padrão de desenho ornamental muito explorado, como o próprio molusco já serviu para revestir paredes, móveis, apliques de luz, lustres, molduras de espelho, caixas e objetos os mais diversos.

 

No tempo dos romanos, muitos do típico chão de mosaico colorido tinham a concha como motivo central. E nas cortes europeias era comum os grandes prateiros esculpirem, inclusive com acabamento em vermeil, centros de mesa, travessas e jarras em forma de concha. Escultores as fundem até hoje em bronze ou imitam sua forma na pedra.

 

 

 

Chapéus e botões

 

Na moda podem funcionar como enfeite e o fato é que desde sempre a madrepérola é, por excelência, a matéria prima dos botões. Issey Miyake, em uma de suas coleções, fez um casaco ondulado em forma de uma grande concha. Já Krizia e Christian Lacroix criaram, em palhinha, chapéus nesse formato. E quem não há de reconhecer que um botão de madrepérola num cardigã, blusa ou camisa faz toda a diferença?

 

Os joalheiros, ao montá-las com ouro e pedras preciosas, reafirmam sua preciosidade. Artistas da joalharia, como Georges Fouquet e Jean Schlumberger, fizeram com elas maravilhas, desde joias delicadas a estojinhos para pó-de-arroz, porta-batons e minaudières. Em porcelana e cerâmica sua forma resultou em peças que se destacam como atraentes ao olhar e ao toque.

 

A concha foi também sempre um motivo recorrente para os grandes mestres do bordado, como Jean-François Lesage, e é comum encontrá-la decorando escudos e brasões. Já foi tema de grandes pinturas e, misturadas a flores e frutas, de belas naturezas mortas. Em qualquer dos principais museus de artes decorativas da Europa você dará com objetos calcados na forma da concha, ou em que ela é usada como material e outros onde estarão presentes, esculpidas ou incrustadas.

 

Não parece haver forma de expressão artística que não as tenha utilizado. Assim como, pela sua forma sensual e ondulada, foram fonte ideal de inspiração para os artesãos do barroco e do rococó e dos designers barbares que surgiram na França dos anos 80. Estes as usaram como motivo para puxadores e ferragens, para padrão de estampas em tecidos em linguagem obviamente mais moderna e contemporânea. E suas formas orgânicas estão sendo hoje inspiradoras no novo mundo da design art, onde a forma valeria mais que a utilidade da peça.

 

O homem primitivo, que sempre gostou de se enfeitar, começou a usá-las bem antes do vidro, do metal ou da cerâmica. Algumas conchas podiam funcionar como trombetas, pois são capazes de projetar o som para bem além da voz humana. Outras se transformaram em armas, colheres e recipientes para líquidos. Por suas formas misteriosas e que nos transcendem, acabaram ganhando conteúdo simbólico, sobretudo no universo das crenças religiosas, e passaram a ser usadas como amuleto contra o mau-olhado, objeto de sorte e também como ornamento na arquitetura de igrejas e capelas. E, em algumas culturas primitivas, viraram símbolo de status e poder.

 

Da África ao Paquistão, da Polinésia aos Andes colombianos, mini-conchas se transformaram em contas, colares, brincos, bolsas, enfeites de cabelo, golas-babadores e máscaras. Na Turquia, durante o Império Otomano, retirava-se das conchas a tinta para tecidos.

 

Mas, sem dúvida, a bela madrepérola é a grande rainha. Até o século 16, para identificá-la, dizia-se nacre, do árabe naqqarah, que quer dizer "mais sedutora". Foi somente no reinado de Elizabeth I, na Inglaterra, que ela passou a ser chamada de madrepérola.

 

Em seu livro A Conquista da Felicidade, Bertrand Russell diz que "o estudo das conchas sempre trouxe contentamento a quem se engajou nele". Além de um passeio pelas praias dos mares do sul e do norte, leste e oeste, a quem desejar saber mais sobre conchas e seu uso no mundo da decoração, sugiro a leitura da obra de Ingrid Thomas The Shell – a World of Decoration and Ornament. www.mariaignezbarbosa.com