Limite da arte

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

A Design Miami, com um viés sem luxo e quase rústico, privilegia móveis idealizados como expressão artística

Design Miami – a mais representativa das mostras internacionais do segmento de design art – encerra sua quarta edição consolidando um fenômeno em alta em todo o mundo: a valorização de móveis e objetos criados não para desempenhar uma função específica no espaço doméstico, mas, antes de tudo, para servir de suporte e – por vezes de pretexto – para novas formas de expressão artística.

 

"Meus clientes veem pouca diferença entre escolher uma tela ou uma poltrona na hora de decorar o living. Para eles, a interação com o móvel pesa bem mais que preço ou funcionalidade", declara Zesty Meyers, galerista nova-iorquino à frente da R 20th Century, um dos endereços obrigatórios na cidade quando o assunto é design art. "Do que eles não abrem mão é da exclusividade", pontua.

 

Eleito designer do ano pela organização do evento, o holandês Maarten Baas é o profissional que melhor sintetiza o momento atual. Rebelde, um quê desencantado e pouco afeito a convenções, ele não se incomoda em carbonizar clássicos do design apenas para extrair deles uma nova expressão. Única e mais próxima do objeto artístico do que de qualquer produção: assim é sua linha Smoke, para a Moos.

 

Um gaveteiro construído pela simples acomodação de diversas gavetas em torno de uma cinta de couro; uma escrivaninha de desenho híbrido, formado pela junção de uma mesa e de uma cadeira, dando origem a uma nova forma, tão estranha quanto inédita. Um dos destaques entre as coleções apresentadas na última edição do evento, as do Droog Design, assim como as de Baas, não almejam a unanimidade. Mas não cansam de alcançar altas cifras no mercado internacional.

 

 

Introspecção

 

Por si só uma obra de design, a estrutura montada para abrigar o evento no Miami District, desenvolvida pela Aranda/Lasch com faixas horizontais de tecido cinza chumbo ligeiramente inclinadas, sugerindo uma tenda, acentuou a atmosfera de introspecção que caracterizou a mostra, realizada em dezembro, avessa à profusão de cores e aos arroubos de otimismos de edições anteriores.

 

Pelas lentes da arte, o móvel-arte, na Miami 2009, se revela em estado bruto, desprovido de luxo e de qualquer vestígio de ornamentação. Que o diga, por exemplo, o inglês Tom Dixon, um adepto incondicional do brilho e da cor em suas coleções produzidas para o grande mercado, mas abertamente rústico, quase rudimentar, em sua coleção de candelabros talhados à mão.