Invasão de estampas

Natália Mazzoni - O Estado de S.Paulo

Jovens designers se voltam para a moda casa e aproveitam a liberdade de criação para ousar

Não tem como negar: as estampas estão por toda a parte. Em casa, os desenhos supercoloridos, inspirados na natureza ou com temas gráficos antes se mostravam timidamente em almofadas, tapetes ou na roupa de cama. Mas não é mais preciso ter medo de ousar na hora de misturar padrões ou revestir a parede com aquela estampa que você adora. Com tantas opções no mercado, mesmo para os mais minimalistas, experimentar vestir a casa aos poucos se torna uma tentação. 

E é por isso que jovens designers estão apostando em criar estampas que saem da prancheta para os móveis, o papel de parede e até utensílios de cozinha. “É como uma libertação. Você pode chegar em casa, tirar sua roupa estampada e continuar vivendo a ideia do colorido. E isso se reflete também nos criadores, que agora querem expandir seus limites e ultrapassar as fronteiras da moda”, diz o artista plástico Marcio Banfi, professor de Design de Superfícies da Escola São Paulo.

Quem ainda prefere alternativas mais contidas não fica de fora. “Existiu o momento em que o ideal era que tudo fosse o mais minimalista possível e é exatamente por isso que a estampa hoje tem essa identidade forte, mas que também sabe ser discreta, em padrões pequenos, com cores menos chamativas. É uma tendência democrática”, explica Banfi.

De olho nisso, a La Estampa, que atua no mercado de moda desde 2002, se prepara agora para lançar tecidos com estampas exclusivas para decoração. “É preciso estudar uma estampa para que ela funcione em casa. Tamanhos e formas têm de ser repensados, já que ela se repete muitas vezes numa superfície maior que a da roupa. Tudo ganha nova dimensão”, diz Marcelo Castelão, diretor-presidente da marca. A ideia é que os clientes visitem as Casas de Criação da marca, em São Paulo, Rio e Fortaleza, e se inspirem com as estampas que se espalham pelas paredes e mobiliário dos espaços, que se dividem entre showroom e ateliê. 

“Quando entramos no mercado de estampas procurávamos referências no que existia lá fora, principalmente na Europa. Com o passar do tempo, percebi que o que faltava aqui não era isso e sim a criação de uma identidade brasileira, com referências nacionais. E é essa necessidade, de ter boas estampas para mobiliário, que me leva agora a investir nesse mercado. As pessoas também querem vestir suas casas”, comenta. A nova linha, ainda em fase de pesquisa, deve ser lançada em agosto. 

Defensora da ideia de que cores deixam qualquer casa mais alegre, a designer Sophia Longo Pereira, com a sócia, a ilustradora Tina Vieira, fundou o Estúdio Vermelho, espaço virtual que reúne designers dispostos a ousar na criação de estampas. “As empresas brasileiras estão percebendo que a estampa agrega valor ao produto, o que já acontece no exterior, em panelas, azulejos, eletrodomésticos. Por isso, o mercado está procurando bons profissionais para atender a essa demanda”, diz Sophia. 

Cores da hora

O Comitê Brasileiro de Cores, em parceria com o Comitê de Tecidos para Decoração, acaba de elaborar a primeira edição da Cartela Têxtil de Cores do Centro de Estudos de Cor para a América Latina. A pesquisa de cores e tendências têxtil começa 12 meses antes do lançamento da cartela, preparada para chegar ao mercado na abertura da ForMóbile (feira internacional de fornecedores da industria de madeira e móveis), no dia 29. “É uma analise de tendências comportamentais detectadas nas áreas culturais”, diz Elisabeth Wey, colorista e presidente do CBC. Entre as 37 tonalidades que serão apresentadas, Elisabeth aposta nas inspiradas nos candies (tons pastel), cinzas e fúcsias para serem fortes tendências.

Processo de criação

O processo de criação em empresas como a La Estampa começa com o alinhamento de ideias dos diretores de diferentes áreas, que reúnem informações sobre comportamento, arte e tendências. Depois, é hora de viajar em busca de inspiração, para trazer na mala fotos, livros, peças de brechó e tudo o que possa alimentar os designers. Os profissionais usam técnicas de pintura como aquarela, guache e nanquim, e a partir dos desenhos prontos as estampas são montadas, em padrões de encaixe nas medidas dos tecidos. Por último, o time da arte final determina se a produção será cilíndrica (equipamentos que imprimem até 12 cores diferentes) ou digital, que reproduz qualquer tom, permitindo criações mais detalhadas.