Imitação da vida

Ademir Correa, produção de Ângela Caçapava - O Estado de S.Paulo

O Casa& convida quatro artistas para representar a preguiça em imagem

O que prejudica a minha preguiça, prejudica o meu trabalho, dizia Mario Quintana. O poeta, autor de Da Preguiça Como Método de Trabalho, ainda ousava afirmar que seus leitores eram do tipo dorminhocos, daqueles que não poderiam ser acordados pois costumavam ler sob o efeito do sono.

 

Esse pecado capital, no fazer artístico e intelectual, sempre serviu como inspiração ou freio, permeou não-ações (reais ou ficcionais) e produziu sensações particulares - de quem o transformou ou o consumiu como obra. Como preguiça do dia, encontramos, ou a confundimos com, o tédio - "que tem sua representação social aos domingos", segundo Arthur Schopenhauer -, a acomodação e o jeitinho brasileiro. Como cansaço da alma, há o desalento - como em Canoas e Marolas, de João Gilberto Noll -, a contemplação e a imobilidade.

 

Mas, culturalmente, temos negado nosso direito de pouco fazer. Produzir sem cessar é o estereótipo vigente, atrelado às leis do trabalho. E à felicidade. Mas até essa ideia encontrou resistência. O pensador francês Paul Lafargue, por exemplo, pregou o "direito à preguiça" como uma luta verdadeiramente libertária. Já o teórico Jean Baudrillard defendia a escolha pelo ócio: "Não mudarei, qualquer que seja o curso dos acontecimentos. Detesto a atividade agitada dos meus concidadãos, a iniciativa, a responsabilidade social. São valores exógenos, urbanos, pretensiosos. São qualidades industriais. A preguiça é uma energia natural".

 

Mãe do tempo perdido, alguns criadores aproveitam o não-alerta como feriado da mente. Por isso, a fim de redefinir, ou homenagear, esse estado de espírito, convidados Felipe Morozini, Tuane Eggers, Renato De Cara e Rochelle Costi, artistas plásticos que têm a fotografia como suporte, para resumir o ser preguiçoso nas imagens, e nas entrevistas, a seguir. Leia deitado. Se quiser.

 

 

SEM CULPA

O paulistano Felipe Morozini, de 34 anos, vê-se como "um fotógrafo que caminha por outros olhos". Em seu manifesto, Hedonismos, reverencia o prazer de não fazer nada. "Sem culpa", acrescenta. Inquieto, transformou sua morada em um projeto em que recebe outros artistas para criar - geralmente naqueles dias em que o relógio anda mais devagar.

 

Preguiça é?

 

Fundamental para o bom andamento dos pensamentos. Infelizmente, na nossa cultura, os preguiçosos são vistos como vagabundos.

 

De que forma ela pode ser inspiradora?

 

Acredito que grandes sacadas surjam no meio de uma sesta.

 

Seu projeto de residência faz sua casa virar uma eterna galeria, não?

 

Imagine conseguir se dedicar uma semana por mês a uma outra pessoa. Pegar esse tempo ocioso e transformar em algo realmente criativo.

 

Em cliques, onde você já esteve?

 

Literalmente? Índia, Itália, Londres, Bahia, Manaus. Subjetivamente? Lua, Marte, século 17, florestas virgens e lugares sem nome.

 

 

Foto: Felipe Morozini vê sossego no mar de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Ele afirma que a liberdade artística faz com que se consiga criar até nesses momentos de lazer profundo

 

 

'QUANDO O SOL NÃO BRILHA'

Tuane Eggers é a musa onipresente de Os Famosos e Os Duendes da Morte, de Esmir Filho, melhor filme no último Festival do Rio. Gaúcha de Lajeado, muito antes da estreia em tela grande ela já registrava suas peripécias de menina de 20 anos, e o mundo surreal que provém delas, em (séries de) retratos. Muitos deles habitam a rede. E nos levam para atmosferas de sonho.

 

Preguiça é?

 

Quando o sol não brilha e os olhos não veem as infinitas possibilidades que temos.

 

De que forma ela inspira?

 

Com a mente livre, você consegue belos insights. Mas só quando você não está preguiçoso para pensar. Porque, nesse caso, ela bloqueia.

 

Um artista se dá o direito de tirar férias?

 

Elas acabam acontecendo, senão as ideias entram em colapso.

 

E tudo pode virar tédio?

 

Sim, ele é o último do ciclo que faz a inspiração voltar a funcionar. Antecede a vontade.

 

Como sua cidade se relaciona com esse pecado?

 

Não valorizando nem dando espaço à cultura. E se preocupando apenas com a evolução em números, com preguiça de enxergar que a base de tudo é a formação intelectual.

 

Foto: ‘Busquei mostrar a preguiça de não enxergar as possibilidades quando você está deitado na inspiração’, conceitua Tuane Eggers. ‘Minhas fotos sempre me levam para muitos lugares imaginários’, ela explica

 

 

 

DIVAGAR É PERMITIDO

 

Jornalista e fotógrafo, Renato De Cara, de 46 anos, pensa que a preguiça traz, sim, um potencial artístico. "Temos toda uma tradição baiana, não é? Daquela rede em Itapuã. Além do mito do índio e de Macunaíma." Acostumado a cobrir os estressantes backstages das semanas de moda, ou a acompanhar a montagens das exposições de sua casa das artes, a Galeria Mezanino, ele defende o descanso para limpar o HD mental.

 

Preguiça é?

 

Uma mistura de acomodação, falta de vontade, medo, ingenuidade e vagabundagem.

 

Um artista se dá o direito de tirar férias?

 

Sim, apesar de nem sempre ter condições para isso. O ócio, no meu entender, é necessário para nos tirar desse ritmo louco. Precisamos nos permitir divagar. E sempre com um caderninho à mão para anotações.

 

Em seu trabalho como curador é flagrante encontrar diálogos com a preguiça?

 

Explicitamente, encontro mais desorganização e falta de foco.

 

De que forma sua cidade se relaciona com esse pecado capital?

 

Em São Paulo? Quem fica parado é atropelado e some do cenário.

 

Foto: Para a obra Sem Sinal, De Cara pensou na prática quase automática de estar diante da TV. ‘Uma máquina hipnótica que paralisa.’ De acordo com o fotógrafo, ‘quem fica Sem Sinal é o telespectador – que é abduzido, como em ‘Poltergeist’’

 

 

 

LABIRINTO DOMÉSTICO

 

"Sou uma observadora. Eu me nutro, desde cedo, das coisas que envolvem o espaço e a forma como o utilizamos", confessa Rochelle Costi, de 48 anos. A artista, que veio de Porto Alegre para a capital paulista há mais de duas décadas, tem a casa como cerne de sua pesquisa. "Boa parte de minha produção gira em torno do labirinto doméstico mesmo."

 

Como a preguiça vira obra?

 

Morei em Londres no início dos anos 90 e trabalhei como modelo para classes de arte – tive que ficar parada, na mesma posição, durante 5 horas, por 10 dias. Para não enlouquecer, comecei a registrar essas cenas. A partir das fotos, formatei o trabalho "50 horas – Autorretrato roubado" que discute a imobilidade, o ser objeto.

 

É possível controlar a sensibilidade aguçada quando não se está fazendo nada?

 

Sinto que, quando viajo para onde a natureza predomina, me torno mais contemplativa, pequena e passiva. Já cidades grandes ou pequenas me deixam ativa, passa a ser inevitável documentar os instantes. Mas isso não me cansa, estimula.

 

Foto: Rochelle Costi indica uma rede para deixar o corpo em suspensão e ‘balançar a alma’. Outras obras da artista podem ser vistas na mostra ‘Objeto Encontrado’, no Centro Cultural São Paulo (até 14 de março)