História de uma paixão

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Alcachofra em conserva, no recheio de tortas, na cobertura de pizza ou na forma de doce... Chega a mais de uma centena o número de receitas que Maria Montanarini já criou com essa flor que foi parar na mesa na época do Império Romano. Italiana de Messina, na Sicília, ela conta que, quando chegou ao Brasil, teve de transmitir muita informação sobre a alcachofra, desde o jeito certo de comê-la até as várias formas de preparo, quando era sócia da irmã Ana no Il Garofano Rosso, restaurante de culinária italiana nos Jardins, no começo dos anos 80. "Como bons italianos, minha família sempre gostou da mesa farta. E trouxemos da Itália o hábito de comer alcachofras. No restaurante, inventei o Festival da Alcachofra, em 1981, e foi um sucesso!" , conta a elegante Maria, na sala de almoço de seu apartamento decorado em branco. "Repetíamos todos os anos e passei então a me concentrar na criação de receitas." A família de Maria, os Amatos, chegou ao país no fim da 2ª Guerra. "Primeiro veio meu pai, um apaixonado pelo Brasil, em 1949, como representante de um laboratório farmacêutico. Um ano depois, minhas irmãs, Ana e Pina; em 1951, eu e minha mãe. Estava no convés do navio, no porto de Santos, quando conheci meu marido, Silvio Montanarini, já falecido... Com Silvio, tive dois filhos", resume. Em Pinheiros, onde os Amatos se instalaram, a mãe e as irmãs faziam todos os serviços da casa - Maria era poupada porque cursava faculdade de letras. Mas acabou descobrindo o dom da culinária quando Ana abriu o restaurante. "No começo, eu cuidava do caixa, das compras. Depois fui parar na cozinha, de onde nunca mais saí", recorda. Em 1985, quando o Il Garofano fechou, Maria foi passar uma temporada na Sicília (Itália). Na volta, aceitou o convite de amigos da filha, donos do Supremo, e abriu a Casa Europa. "Sempre que viajava, fazia um curso", lembra. Há dois anos, ela se afastou do negócio, mas continua a dar aulas de culináriana sua casa e a atualizar o livro Il Carciofo ("A Alcachofra"): a primeira edição, de 1994, tinha 65 receitas, enquanto a nova, Alcachofra, a flor e seus segredos (Ed. Senac), reúne 148 modos de preparo, além da história saborosa da flor através dos tempos. Aulas na cozinha Há três anos, Maria contratou o arquiteto Beto Galvez para reformar a cozinha do seu apartamento nos Jardins. "Ela queria o espaço integrado à sala de almoço, por causa dos cursos que dá e porque gosta de conversar com os convidados enquanto cozinha", diz Beto, que instalou bancadas de mármore carrara e armários com portas de folhas de freijó-linheiro, "para quebrar o branco" (projeto do escritório do arquiteto, preço sob consulta). Por questão de praticidade, fogão, geladeira e máquina de lavar louça são embutidos. A pedido da proprietária, o arquiteto também projetou um carrinho de apoio, com rodízios e gaveteiro, que a chef leva para lá e para cá enquanto está em atividade no espaço que tanto preza. Os detalhes decorativos foram escolha dela. Um bowl em madeira ecológica (com 20 cm, R$ 138 e com 30 cm, R$ 236, na Art Mix), por exemplo, enfeita o alto de um armário lateral. Nas bancadas, Maria quis aparelhos de inox, como a máquina de macarrão Atlas (R$ 288,90, na mesma loja) e a torradeira Cuisinart (R$ 394,20, idem). O fogão é da marca Lofra (R$ 7.800, com cinco queimadores, na Suxxar), sob a coifa Falmec (R$ 2.900, idem). Entre uma ida e outra ao fogão para conferir o cozimento, ela faz uma declaração de amor à alcachofra: "É uma flor maravilhosa. Para quem não sabe, pode-se comer as folhas e o fundo crus".