Frescor no Outono inglês

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Patricia Urquiola promete ser o centro das atenções em exposição londrina, com as primeiras peças de porcelana

Fenômeno da modernidade, exposição à mídia ou talento de verdade, o fato é que a espanhola Patricia Urquiola já se afirmou como um dos maiores nomes do design contemporâneo. Com jeito doce e um rosto que não revela seus 47 anos, é venerada por estudantes de design, requisitada pelos mais importantes fabricantes de móveis e objetos contemporâneos, tem trabalhos nos principais museus de design e de arte moderna do mundo e é sucesso certo de vendas nas feiras de Milão. Junto com o outono londrino, em 10 outubro próximo, à beira do Tâmisa, ela aterrissa no Design Museum e vai ser o centro das atenções com a exposição Landscape - Purely Porcelain, um conjunto de criações em porcelana branca que inclui jogos de jantar e de chá, além de talheres e objetos de vidro. Foram dois anos de criação de um processo conceitual rigoroso, que vai da idéia ao protótipo e desse ao produto final, testado e pronto para o uso, percurso que a mostra pretende expor e explicar ao público. Até 25 de janeiro de 2009 vai ser possível visitar a exposição e também, se cairmos de amores por alguma peça, comprá-la na loja do museu. É a primeira vez que Patricia trabalha com porcelana. E afirma ter gostado da experiência: "A cerâmica é menos um problema a ser resolvido do que aquele da estética e da resposta emocional a essa estética". O que conseguiu foi juntar a simplicidade do branco e das superfícies lisas ou com texturas com uma decoração errática, "às vezes preenchendo as formas e, em outros momentos, delas escapando". De acordo com o humor visual contemporâneo, criou um compêndio sensual que junta o translúcido e o sólido, e mistura as linhas da cerâmica oriental com as da européia. A coleção foi fabricada na manufatura de porcelanas Rosenthal, com o selo Studio Line, programa de apoio a jovens e modernos designers que trabalham com o branco e as formas puras. As coleções Tac, de Walter Gropius; a Drop, de Luigi Colani, e a Moon, de Jasper Morrison, são parte dessa produção paralela. Design, desde criança Aos 12 anos, em Oviedo, na Espanha, onde nasceu, em 1961, Patricia Urquiola já tinha na cabeça que seguiria o design. Na Politecnica de Madri, cursou a faculdade de Arquitetura e, em seguida, partiu para mais estudos na capital do design, Milão, onde mora e trabalha até hoje. Ali fez sua tese de mestrado assistida por Vico Magistretti e foi aluna de Achille Castiglioni, que, percebendo seus dotes, a transformou em assistente. Em 1990, foi convidada a desenvolver produtos na fábrica de móveis De Padova. Foi quando deixou, para sempre, a vida acadêmica e teve espaço para deixar vir à tona os hoje inconfundíveis elementos e traços de seu estilo. Mais do que cuidar da experimentação forma versus material, ela foi além, dando asas à imaginação e à graça. Como mulher, foi mostrando ser capaz de pensar em todos os detalhes de uma casa e jamais descuidou do aspecto praticidade. Em 1996, virou chefe do grupo de desenho do Piero Lissoni Associates e, em 2001, aos 40 anos, abriu seu próprio estúdio, voltado ao desenho de produtos, à arquitetura, às instalações e à criação de conceitos. Nas pegadas de celebridades como Philippe Starck, já desenvolveu uma infinidade de produtos para diferentes fabricantes. Variados, podem ser um relógio, como o que desenhou para a Alessi, ou o sofá Low Land, as chaises Fjord e a Antibody para a Moroso; uma cama para a Molteni, uma cadeira de palha para a Driade ou aquela de plástico, a Frilly, que mais parece um Miyake, para a Kartell. As cadeiras empilháveis Lavenham, em plástico preto ou branco, com ou sem braços, fez para a De Padova. Para a Kartell criou também mesas de apoio. A série, Lasy, de cadeiras, ela projetou para a B&B e as luminárias Caboche e Bague, duas lindas invenções, são peças de sucesso da Foscarini. Hoje, madura e confiante, não lhe faltam oportunidades para transformar idéia em realidade. Coleção de prêmios Apesar de casada e com filhos, Patricia é do tipo non-stop. Obsessiva, tem sempre, na cabeça, um projeto em gestação. De tantos, difícil contar em que proporção já foram transformados em produto final. Gosta de discutir com o cliente sobre os detalhes do objeto ou do móvel em questão. Não importa se, em seu estúdio, ou no do fabricante. Ao criar, com conhecido rigor, se preocupa com o comportamento das estruturas, com as técnicas artesanais e os aspectos da memória e de sua vida. À diferença da maioria dos homens, e a seu modo eclético e variado, ela vai em frente, sem muitos desejos premeditados, pois, a seu ver, "o desejo, em geral, acaba virando frustração". É sempre convidada a dar palestras em seminários. Tem também, em seu currículo, vários prêmios. Em 2006, Patricia Urquiola foi agraciada com o Wallpaper Design Award. Concorreu com a Chasen, luminária de teto. Nela um mecanismo faz mexer as venezianas verticais da cúpula e, com isso, permite uma interessante variação na intensidade da luz. No ano seguinte, foi a sua vez de julgar e apreciar o que fazem os outros. Aos jovens, aconselha que não percam tanto tempo estudando. Sugere que busquem referências culturais, defendam seus projetos e idéias, criem uma fórmula própria, sejam passionais e curiosos, e que, se necessário, não hesitem em procurar alguém que lhes possa ajudar a desenvolver a própria personalidade. (nese@estadao.com.br)