Fazer nada

- O Estado de S.Paulo

Texto sobre a preguiça por LUIS FERNANDO VERISSIMO

Ah, o doce fazer nada. Aquela sensação de vazio na agenda - nada marcado para no mínimo um mês. Nenhum compromisso, nenhuma obrigação. Ir para a cama à noite e o último pensamento antes de dormir ser: o que é mesmo que eu preciso fazer amanhã, quando acordar? Nada! Amanhã é dia de quê? De nada! Será que eu não estou esquecendo alguma coisa? Está nada! Você não precisa nem sair da cama, se não quiser. Pode se levantar para ir ao banheiro, certo, mas depois pode voltar para a cama. Lembra quando você era criança e acordava cedo, se arrastava até o banheiro e só no meio do xixi se dava conta de que era domingo e não tinha aula? E voltava para a cama ainda quentinha? Numa escala dos maiores prazeres da existência, este está em terceiro lugar, logo abaixo de passe de calcanhar que dá certo e primeiro beijo de língua.

 

Agora, é preciso qualificar o ócio. Há ócios e ócios. Muitos não sabem como não fazer nada. Confundem não fazer nada com introspecção. Dedicam o fazer nada a mergulhos interiores, que só levam à angústia existencial, ou a filosofar, que só leva a ideias estranhas. Alguns dos piores desastres da história se devem a projetos para salvar a humanidade desenvolvidos durante o tempo ocioso na cama. Também deve ser evitado o chamado ócio virtuoso, que é quando a pessoa, se sentindo culpada por não fazer nada, se impõe tarefas como organizar seus CDs em ordem alfabética ou finalmente consertar a porta do forno. Outra má ideia: o ócio criativo ("Vou escrever meu romance" ou "Vou aprender xadrez"). Esqueça. Você não estará fazendo nada. Só estará fazendo outra coisa.

 

Ócio bem usado é quando você para de fazer coisas para aproveitar o que outros fizeram para você. Pense nisso: Beethoven e Mahler escreveram suas sinfonias pensando no tempo ocioso que você teria para ouvi-las, um dia. Bach e Miles Davis se deram o trabalho de fazer sua música para você ouvir quando quisesse, só tendo o trabalho de estender um braço e apertar um botão. Thomas Mann escreveu A Montanha Mágica na esperança de que no futuro, em algumas semanas sem outro compromisso, você o lesse, mesmo pulando algumas partes. Shakespeare, coitado, escreveu feito um louco prevendo o seu ócio. Proust escreveu na cama para você ler também na cama, entre cochilos. São todos, por assim dizer, fornecedores do seu ócio, de T.S.Eliot a Pixinguinha.

 

E se você preferir ignorá-los, e ficar só contemplando o dedão do seu pé sem fazer nada, absolutamente nada, também pode. Afinal, o ócio é seu.