Era uma casa muito engraçada...

Marcelo lima - O Estado de S.Paulo

A casa Tic-Tac, do FGMF, põe fim aos ambientes fixos, com paredes que se movem por meio de rodízios

Imagine uma casa sem configuração definida. Onde paredes e tetos podem se deslocar pelo espaço e reduzir a área construída para apenas 70 m². Ou expandir sua superfície total para 400 m². Não, não se trata de ficção: essa casa, apelidada de Tic-Tac, existe. Ou melhor, seu projeto existe, leva assinatura brasileira e acaba de ganhar as páginas centrais de uma das mais badaladas revistas de arquitetura e design do planeta, a britânica Wallpaper.

"Não existe faz de conta na nossa arquitetura. Nada impede, portanto, que a Tic-Tac venha a ser construída", argumenta um dos autores do projeto, Lourenço Gimenes, paulistano, de 33 anos, arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e sócio do escritório Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz. Conhecido pelas iniciais FGMF e mantido em parceria com Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz - todos amigos de faculdade, da mesma idade, origem e formação -, o estúdio acaba de ser apontado pela publicação britânica como um dos 30 escritórios de arquitetura mais promissores do mundo.

 

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É a primeira vez que a revista destaca um escritório brasileiro. "Não dá para ficar indiferente. Não podemos precisar como eles chegaram até nós. Acredito que a exposição que nosso trabalho teve na Europa no último ano foi decisiva", comenta Fernando Forte.

Como resultado da menção, a equipe foi convidada a desenvolver para a edição especial da Wallpaper uma casa conceitual. Surgiu assim a Tic-Tac, misto de morada e caixa de surpresas, mas que, para os arquitetos, não tem nada de futurista. "Espaços articulados são prioridades contemporâneas. Hoje é raro encontrar alguém que dispense uma cozinha aberta, por exemplo", defende Marcondes Ferraz.

FGMF

Maquetes do projeto, mostrando o deslocamento dos espaços internos e da pérgola

Para o trio, que acumula quase 160 projetos - de residências a escolas - em pouco mais de dez anos de atividade, a notoriedade imediata proporcionada pela revista vem bem a calhar. Em curtíssimo espaço de tempo, eles passaram a ser alvo não apenas da atenção da mídia, mas também de potenciais clientes. "Algumas pessoas ligaram querendo saber se poderiam encomendar projetos idênticos", conta Forte.

Ainda sob o impacto da publicação, os arquitetos receberam o Casa& em sua sede, na Vila Madalena, para um bem-humorado bate-papo em que relembraram sua trajetória, comentaram projetos e anunciaram que o futuro já bate à porta. "Uma casa menos hierarquizada não é mais utopia. É exigência da maioria de nossos clientes", afirma Marcondes Ferraz.