Em todos os ângulos

Alastair Gordon - O Estado de S.Paulo

Reforma cria parede, teto e portas com inclinações incomuns em apartamento de Nova York

A pergunta que Scott Bruckner fez aos arquitetos contratados para reformar o apartamento de 353 m² que comprou por US$ 6,5 milhões (cerca de R$ 14,4 milhões) em 2007, em Tribeca, foi: “de que maneira vamos transformar esse espaço em um evento?”. Bruckner, de 56 anos, um financista que passou grande parte de sua carreira no exterior e regressou a Nova York para trabalhar em uma gestora internacional de ativos, morou no apartamento cerca de um ano. E embora “fosse grande e arejado e gostasse da localização”, era pouco mais do que um espaço branco estático. 

A empresa contratada, Voorsanger Architects, apresentou uma proposta relativamente conservadora. Mas quando os arquitetos se deram conta de que seu cliente adorava o risco, criaram um projeto que transformou o espaço parecido com um caixote em um apartamento de solteiro com paredes e portas de inclinações angustiantes e uma longa parede texturizada de limestone que começa na entrada relativamente apertada, contorna um ângulo e explode no conforto total da área do living. Um estreito recorte parecido com uma fenda geológica corre numa leve diagonal ao longo da parede, sugerindo sutilmente uma cornija ao passar por cima da lareira encaixada na parede. 

Agora, praticamente não há nenhuma perpendicular no local, e, “sempre que você vira a cabeça, acontece uma coisa nova”, disse Bruckner. “Meus amigos que vêm aqui imediatamente ficam sem palavras diante da parede”, acrescentou. “Todos que entram vão diretamente para a parede e a tocam.” 

Feita de uma série de planos inclinados – cerca de 40 peças, cada uma de cerca de 2,5 cm de espessura –, que se encaixam em juntas fresadas, a parede é um recurso que organiza o espaço e é também um ponto focal, disse Martin Stigsgaard, que trabalhou no projeto com Bartholomew Voorsanger: “A parede liga todos os espaços e cria um caminho visual por todo o apartamento”. Mas ela adquiriu uma presença escultural tão forte que todos concordaram que era necessária uma espécie de resposta do lado oposto da sala, onde há uma série de janelas em arco que dão para a Greenwich Street. 

Portanto, os arquitetos fizeram “nadadeiras” prismáticas, como as chamaram, com uma resina translúcida e as colocaram entre as janelas. Os tetos são de placas de gesso cobertas de massa corrida e pintados de branco, em seções que pendem em diferentes ângulos e alturas, lembrando a geometria fraturada da parede. A mobília, projetada na maior parte por Stigsgaard e Voorsanger, retoma os ritmos da parede. 

No escritório, uma placa de aço pintada de esmalte branco que sai da parede serve de mesa de trabalho. Foi uma sugestão de Bruckner: “Eu queria que a mesa desse a ideia de uma asa de avião. “Eles tiveram de cortar a parede e prender a placa a suportes de aço”. As cores de todo o ambiente são atenuadas, porque “toda cor é excessiva”, na opinião de Bruckner. 

Quando entrou pela primeira vez no espaço depois da reforma concluída, ele ficou pasmo. No minuto seguinte, estava apaixonado pelo lugar. “O espaço assume uma dimensão diferente cada vez que olho para ele.” 

/ Tradução de Anna Capovilla