Elogio à linha reta

- O Estado de S.Paulo

Em três níveis, o jardim sem rebuscamento exibe um recurso bem particular: ‘mesas verdes’

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Reportagem de Marisa Vieira da Costa

Produção de Ângela Caçapava

Fotos de Zeca Wittner

 

O acentuado aclive do terreno nos fundos da casa, num condomínio no Morumbi, era uma dor de cabeça para a proprietária. Ela queria fazer da área, com cerca de 300 m², um bom espaço de lazer para a família, mas, cada vez que pensava em começar uma obra, surgia um problema e os planos eram adiados. Foi assim por um bom tempo até que resolveu pedir um projeto para o arquiteto e paisagista Marcelo Faisal. E gostou do que lhe foi apresentado: um jardim com patamares, de linhas retas, piscina e uma edícula que servisse como sala de jogos, lounge nas noites de festas e espaço gourmet.

 

O primeiro passo, segundo o paisagista, foi fatiar o terreno, criando muros de contenção revestidos de canjiquinha e escadas laterais. O primeiro plano fica no nível da varanda da casa; no segundo estão a piscina e a edícula, e, nos fundos, a encosta coberta de vegetação. Faisal não usou grande número de espécies, mas todas estão distribuídas de maneira a acentuar a forma geometricamente organizada do jardim.

 

Vista do jardim criado em três planos por causa do desnível do terreno

 

O destaque do projeto ficou por conta das chamadas "mesas verdes", espécies de caixotes retangulares de buxo topiado, cuja função vai além da escultural – em dias de festas, com tampos de vidro ou acrílico, servem de apoio para copos e velas, criando um efeito surpreendente com a água da piscina, a vegetação, o piso claro e as pisadas de pedra São Tomé entremeadas de grama preta. "Contrariei o conceito de buxinho bola", diz Faisal.

 

No nível da varanda, de onde se deslumbra todo o jardim, três dessas mesas verdes foram simetricamente plantadas entre pedriscos delineados por grama preta. Sobre eles, já no patamar da piscina, uma bordadura de mini-ixoras, com dinheiro-em-penca como forração, foi feita propositalmente para não tirar a profundidade do jardim. Um pândanus atua como sinalizador nessa área e duas cicas complementam a linha das palmeiras abaixo. À direita, bambus-mossô dão o toque oriental. A cerca-viva de thumbergia com flores azuis arroxeadas garantem a cor desse jardim.

 

Floreira com mini-ixoras. Escada leva ao segundo plano do jardim, com a edícula

 

"Procurei tirar partido do que era um problema, o nítido desnível do terreno, que acabou ajudando a composição do trabalho. Da varanda, se vislumbra o jardim por inteiro e as espécies foram distribuídas de maneira estudada para manter o conceito que pensei", explica Faisal.

 

DIAS DE FESTA

O paisagista se orgulha do jardim da piscina (que também é de linhas retas), que tem vista panorâmica para a edícula. "Essa foi uma grande sacada. Como a família tem jovens e é muito festeira, fiz uma construção com dois espaços independentes e ao mesmo integrados. Dá para jogar bilhar, descansar nos sofás e promover almoços, já que há uma cozinha gourmet. Nos dias de festa, é só afastar a mesa de jogo que se abre o espaço para dançar. Eles também se reúnem lá quando o tempo não ajuda."

 

O verde dos bambus-mossô e da touceira de mini-ixoras cria contraste com o branco da construção

 

As laterais do jardim não ficaram de fora do projeto paisagístico. As pisadas de pedra São Tomé entre a grama preta permitem a circulação para eventuais acessos ou durante os trabalhos de manutenção. Nas paredes do lado direito, Faisal instalou ripsalis em placas de fibra de coco. Do lado esquerdo, em toda volta, a cerca- viva de thumbergia, que se enche de flores durante boa parte do ano.

 

O paisagista economizou no mobiliário do espaço. Além das espreguiçadeiras em volta da piscina, mesas e cadeiras na varanda no limite com o primeiro plano do jardim.