Doce vida de novela

Julia Contier - O Estado de S.Paulo

Na trama de 'tempos Modernos', as câmeras mostram toda a versatilidade do décor

Erguido na década de 70, o Edifício Grande São Paulo ganhou holofote especial na atual novela das 7 da Globo, Tempos Modernos. Com o nome fictício de Titã, o prédio "localizado" na Rua Líbero Badaró, centro da capital, teve a arquitetura da fachada reproduzida fielmente na cidade cenográfica do Projac, no Rio – assim como grande parte da região do Vale do Anhangabaú –, somando quase 7 mil m² de área construída.

 

Na trama, o edifício inteligente, protegido por câmeras de segurança e pelo computador Frank, representa o reinado do personagem Leal Cordeiro, interpretado por Antônio Fagundes. "Colocar um prédio como protagonista é uma proposta nova", explica o diretor-geral José Luiz Villamarim. Elaborado para abrigar apartamentos de diversos tamanhos e lojas, ele deveria concentrar a modernidade e as memórias de uma construção que está na cidade há cerca de 40 anos. "O Edifício Grande São Paulo é nostálgico e moderno, como queríamos", completa.

 

Saindo da cidade cenográfica, há ainda 40 cenários dentro do estúdio. O cenógrafo Fábio Rangel explica que houve uma preocupação maior em conceituar cada personagem e seus respectivos apartamentos, em função de grande parte da novela se passar dentro do referido prédio. A reportagem do Casa& foi até o Rio conferir o trabalho da cenografia e produção de arte e pegar algumas dicas de decoração com a equipe da novela.

 

O apartamento de Leal, que fica perto da cobertura, mostra muito da personalidade de seu morador. De origem simples, o empreendedor construiu sua riqueza no universo da construção. O contato com arquitetos como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha fez com que sua casa ganhasse algumas obras de arte.

 

De acordo com a produtora de arte Andrea Penafiel, Leal não tem um imóvel que ostenta riqueza, embora dinheiro não seja um problema para ele. Para tornar vivo seu passado, do qual tanto se orgulha, seu apartamento é recheado com ferramentas antigas, maquetes de grandes edifícios que ele ajudou a erguer e e plantas de algumas construções. Ao mesmo tempo, a presença na sala de um Aero Willys dos tempos em que Leal era pobre reflete o espírito empreendedor do morador. "O reflexo desse império é esse apartamento que ele fez", afirma o ator Antônio Fagundes.

 

O protagonista mora com as filhas Nelinha (Fernanda Vasconcellos) e Regeane (Vivianne Pasmanter). A caçula Nelinha, formada em Astronomia, tem um quarto lúdico, com direito a telescópio. Parecida com o pai, dispensa sofisticação e luxo. A consumista Regeane vive em um ambiente que mistura o brega e o chique. Em seu universo, o dourado predomina. Extremamente vaidosa, é cercada por fotos dela mesma.

 

A terceira filha de Leal, Goretti, interpretada por Regiane Alves, é bonita por natureza e cafona por vocação, o que também aparece na decoração do espaço onde vive. "O apartamento é basicamente preto, branco e cinza. A cor fica por conta do meu figurino, que é muito colorido", brinca a atriz. Arquiteta e metida a entender de artes plásticas, Goretti gosta de exageros. Ela tem um pufe de vaca, formigas na parede e até uma pirâmide, influência do marido charlatão, Bodanski, vivido por Otávio Müller. Profissional de araque, o "doutor" Bodanski tem pendurado nas paredes diplomas falsos, produzidos com detalhe pela equipe da arte da novela. As quatro filhas do casal dividem um único quarto, que se modifica de acordo com o humor das meninas.

 

Lembranças no cenário

 

"Uma das coisas mais importantes para definir um personagem é a caracterização e o cenário", afirma Eliane Giardini, que interpreta a dançarina Hélia Pimenta. Depois de passar anos viajando por diversos países, ela colocou um ponto final em sua carreira em São Paulo. Mas, em cada lugar de sua casa, há lembranças de suas turnês. Cartazes de seus shows e fotos em cena ajudam a decorar o ambiente, que tem toques cubanos em diversos detalhes. "Chego a me emocionar quando vejo um cartaz de um show de que a Hélia teria participado em 1972, na Alemanha. São como diálogos mudos entre os profissionais", diz a atriz.

 

O fato de ser a única proprietária de apartamento no prédio lhe garantiu a liberdade de deixar tudo com a sua cara. A personagem briga um pouco com a arquitetura rígida e quadrada do Titã. No seu universo, há cores, arcos e curvas. É uma casa feminina, quente e latina, assim como a professora de dança.

 

Hélia divide o apartamento com o filho, Zeca (Thiago Rodrigues). De personalidade forte e formação militar, no seu quarto nada está fora do lugar, assim como ele pensa que as coisas devem funcionar na vida.