Decorar a casa é uma forma de se 'reinventar' na terceira idade

João Abel* - O Estado de S. Paulo

Depois dos 60 anos, decoração deve priorizar o conforto, mas sem dispensar visual mais contemporâneo

Vista geral da área social do apartamento, destacando a integração entre as salas de estar e de jantar 

Vista geral da área social do apartamento, destacando a integração entre as salas de estar e de jantar  Foto: Rodrigo Tozzi

Decorar a casa é uma forma de projetar a experiência de vida de seus moradores. E isso fica ainda mais evidente quando se chega à terceira idade, momento em que o lar se converte, em geral, em refúgio de conforto e de lembranças. Para a designer de interiores Melina Mundim, que se especializou em projetos direcionados a essa faixa de clientes, o público veterano exige algumas diferenciações pontuais na hora de reformar e mobiliar. Sobretudo relacionadas ao uso das cores e das luzes na decoração.

“Conforme envelhecemos, nossa visão fica mais frágil, mais turva. É preciso espalhar pontos de cores pela casa, evitando superfícies muito brancas, além de caprichar na iluminação”, destaca. Para alguns, a paleta colorida ajuda a formar uma referência de espaço. Outros, no entanto, preferem uma gama de tonalidades mais neutra, como foi o caso deste projeto de Melina no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, onde tons mais sóbrios e a simplicidade característica de Minas Gerais deram o tom.

Um apartamento de 80 m² completamente mobiliado em três meses para receber um homem de 70 anos que viaja com frequência. Viúvo, ele decidiu deixar a antiga residência depois que o filho mais novo se casou. “Não foram feitos grandes investimentos, porque ele passa no máximo duas semanas por mês em casa”, detalha a designer. A ideia, portanto, foi montar um local de descanso e acolhedor, mas com espaço para receber os filhos e netos, que o vistam para almoços aos finais de semana.

Quarto alia marcenaria na parede de cabeceira a texturas aveludadas

Quarto alia marcenaria na parede de cabeceira a texturas aveludadas Foto: Rodrigo Tozzi

Como principal trunfo, a decoradora investiu em revestimentos de madeira e em obras de arte espalhadas por todo o imóvel, além de livros e objetos decorativos. “Foi uma forma de quebrar a rigidez e deixar o local mais charmoso”, explica.

Apesar de sua idade, o perfil dinâmico do proprietário colaborou para o aspecto contemporâneo da decoração. “Geralmente tendemos a pensar que idosos preferem móveis mais clássicos ou sofisticados. Mas, na verdade, percebi que quase todos eles querem algo mais moderno”, acredita Melina. Para ela, agindo assim, essas pessoas procuram mostrar que sempre é possível se reinventar e renovar a casa se torna uma forma de alcançar esse espírito mais jovial. “Quando chegam aos 60, 70 anos, as pessoas ficam mais ‘desapegadas’. Nessa fase a decoração pode assinalar o começo de uma nova etapa da vida”, avalia a designer.

As lembranças de infância, entretanto, não deixaram de ser incorporadas ao projeto. Na sala de estar, um móvel com nichos traz a memória do pai do morador, que o construiu manualmente, e faz as vezes de mesa lateral. “Foi uma exigência do proprietário. Nós apenas escurecemos um pouco a madeira, que era clara, em uma cor mais ‘crua’”, ela afirma. O móvel ganhou a companhia de um abajur de cúpula arredondada e adereços decorativos da Hogar. Ainda no mesmo ambiente, uma antiga máquina de costura com gabinete, que era da mãe do proprietário, se tornou uma espécie de aparador equipado com gavetas. 

No restante do imóvel, toda a mobília foi renovada, com destaque para o sofá estilo living e as duas poltronas cinzas que delimitam o ambiente, sem necessariamente separá-lo da sala de jantar e da cozinha americana. 

O aspecto regional também está presente nas produções mineiras da São Romão, fabricante do conjunto de cadeiras e mesa de jantar, que partindo da combinação de vidro e madeira imprimem uma atmosfera de área externa mais despojada ao conjunto do apartamento. O espaço ainda é pontualmente iluminado por um pendente da Abatjour de Arte. O toque baiano fica por conta dos revestimentos de madeira da Oca Brasil, usado no móvel de TV. 

No quarto, a parede de cabeceira segue o conceito da marcenaria e de texturas aveludadas, já notado nos outros ambientes do apartamento. Isso garante uma sensação de bem-estar, de suavidade, essencial para quem está nesta fase da vida, segundo Melina.

“Na terceira idade, as pessoas sabem exatamente o que desejam”, pondera a designer. “Elas priorizam o conforto em vez de ter uma casa para mostrar para os outros, como ocorre com as pessoas mais jovens, que estão decorando seu primeiro imóvel”, finaliza.

Menos riscos. Mais conforto.

SOFÁS

No lugar de modelos retráteis, opte por sofás estilo living. Por serem compactos, eles permitem que a coluna fique mais ereta ao sentar. Procure deixar uma ou, no máximo, duas almofadas sobre o móvel.

MATERIAIS

Abuse de texturas que sugiram acolhimento como madeira e crochê. “São elementos agradáveis ao toque, materiais que pegamos de um jeito diferente, que são bons de ter por perto”, ressalta Melina

CAMAS

É aconselhável ter camas com colchão mais firme. Além disso, a altura do móvel deve ser ajustada de acordo com a facilidade dos pés 

alcançarem o chão. Escolha pisos antiderrapantes para evitar acidentes. No caso de tapetes e passadeiras soltos, é importante que estejam fixos ao chão por meio de fitas adesivas.

BANHEIROS

É importante equipá-los com barras de apoio, especialmente em ambientes maiores

QUINAS

Dê preferência a móveis arredondados. Mesas e estantes sem arestas aparentes evitam imprevistos.

MENOS É MAIS

Além de pesar menos no bolso, uma decoração com poucos móveis facilita a circulação dos moradores pelos ambientes.

*Estagiário sob supervisão do editor de suplementos Daniel Fernandes