De olho na estação: confira uma casa feita para o inverno

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Construção, que priorizou o uso de materiais e fornecedores locais, tem suíte e sala com lareira, além de quiosque emvidraçado no jardim

Bem-vindas nos dias de inverno, iluminação e insolação são possibilitadas pela planta linear da casa.

Bem-vindas nos dias de inverno, iluminação e insolação são possibilitadas pela planta linear da casa. Foto: Luis Gomes

Em meio às montanhas da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, existe um refúgio para onde um casal de executivos paulistanos escapa sempre que a agenda permite. No programa, contemplar a natureza, ler muito, se perder em longas caminhadas na companhia das golden retreavers Cacau e Alegria, ou, simplesmente, jogar conversa fora e não fazer nada.

“Hoje, qualquer motivo é desculpa para eles se mandarem para lá. Eventualmente, até trabalhar”, brinca o arquiteto Flávio Butti, autor do projeto desta casa de veraneio de 145m², concebida a quatro mãos com sua sócia, a também arquiteta Alice Martins, a pedido do irmão Luiz e de sua cunhada.

“Eles já estavam habituados a frequentar o pequeno sítio que tenho nos arredores. Além da proximidade pessoal, eles conheciam a região e sabiam o que queriam. Isso facilitou tudo”, lembra Butti, salientando que partiu do casal o desejo de construir uma casa integrada a seu entorno e ao clima da montanha.

“Desenhamos todos os detalhes — arquitetura, acabamentos, iluminação, elétrica, marcenaria — de forma que esse sotaque, digamos, ‘caipira’ da construção, manifesto no uso de materiais e fornecedores locais, pudesse dialogar com as comodidades contemporâneas e com os objetos garimpados pelo casal ao longo da vida. Sem modismos, ou nada que soasse forçado”, conta o arquiteto.

Durante as obras, que duraram um ano, o desafio maior foi viabilizar as operações em terreno tão afastado da cidade e com acesso por transporte pela estrada de terra. Além da mão de obra, foram utilizados materiais da região que se harmonizassem com a natureza local. 

“Mesmo frente às dificuldades, não abrimos mão do ideal de preservar a identidade local, ainda que a 1.600 m de altitude”, salienta Alice.

Assim, sem maiores complicações, a casa se divide em dois blocos. O primeiro traz suíte de hóspedes e sala de TV com lareira, ambos com acesso direto à cozinha e ao pátio externo. O outro, a suíte do casal. Entre os dois, um gazebo envidraçado funciona como estar.

Nestas condições, a iluminação natural se revela abundante. A insolação é ótima, pois a planta linear permite que a casa receba o máximo possível de sol durante o dia, o que é particularmente bem-vindo nos dias de inverno. A ventilação, por sua vez, se dá por meio de grandes vãos, preenchidos com panos de vidro, que podem ser fechados nos dias mais frios para preservar o calor nos interiores.

Itens familiares às construções da região como ladrilhos hidráulicos e cimento queimado revestem os pisos, enquanto sobre as paredes, tons terrosos e quentes reforçam a sensação de acolhimento. Assim como o uso difuso de madeira e fibras naturais por todos os ambientes. 

“Dos móveis aos acabamentos, nossas escolhas priorizaram materiais que fossem agradáveis ao toque”, conta Alice, enquanto aguarda, pacientemente, seu café com bolo quentinho, assado na hora, que está prestes a sair do forno à lenha para recepcionar as visitas — como manda a tradição local.

Matéria publicada na edição impressa de 11 de junho com o título "No clima da montanha".