Arte que vai à mesa

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Em edições limitadas, pratos servem de suporte para a obra de artistas contemporâneos

A coleção Misfits, da sérvia Marina Abramovic, tem prato em formato de estrela; outro com textura de um de seus trabalhos; um com seu brasão de família e ainda um com reprodução de uma de sua principais obras 

A coleção Misfits, da sérvia Marina Abramovic, tem prato em formato de estrela; outro com textura de um de seus trabalhos; um com seu brasão de família e ainda um com reprodução de uma de sua principais obras  Foto: marcelo lima

Em permanente esforço para ampliar o leque de aplicações para a matéria-prima que manipula há mais de um século, a fabricante de porcelanas Bernardaud, com sede em Limoges, no centro-oeste da França, célebre por seus serviços de mesa, produz de luminárias a artigos de adorno pessoal. Teve início em 2013, porém, a mais ousada de suas iniciativas: transformar pratos e travessas em suporte para a obra de renomados artistas contemporâneos.

“A porcelana sempre me intrigou. Tanto pelo aspecto econômico quanto sexual do material”, declarou, provocador como de costume, o americano Jeff Koons, um dos mais importantes nomes das artes na atualidade, por ocasião do lançamento da coleção Banalidade, que traz pratos com impressões de sua série de esculturas de mesmo nome. “A porcelana era o material do imperador. Mas hoje ela foi democratizada e, por isso, se afina tão bem com a proposta desse trabalho”, resumiu o artista.

Sucesso imediato de público – e até hoje um dos best-sellers da manufatura –, a coleção Koons, apesar de seu apelo visual e conteúdo iconográfico, não recebeu semelhante atenção da crítica especializada. Mas, nem por isso, desmotivou os herdeiros da marca, Michel e Frederic Bernardaud, a continuarem perseverando na tarefa de levar às mesas de todo o mundo, senão obras autênticas, ao menos um registro palatável do universo criativo de cada artista. 

“Quando a encontrei em Londres, no ano passado, para apresentar nossa proposta de colaboração, ela foi taxativa: desenho a coleção, mas não abro mão de fazer um filme sobre ela”, contou Frederic, durante o evento de apresentação da série de pratos e travessas assinados pela sérvia Marina Abramovic, lançada na última edição da feira Maison & Objet, que aconteceu em janeiro, em Paris. 

Fiel à sua tradição performática, além de propor um jogo composto de quatro peças desiguais, a artista criou um vídeo de 10 minutos (disponível no endereço www.bernardaud.com/videos )que retrata, tendo como cenário uma mesa posta, as várias fases do relacionamento de um casal e também uma refeição solitária. Mas, ainda assim, vivida com prazer. “A vida não é perfeita, por que um serviço de mesa deveria ser?”, justificou Marina no evento de lançamento. 

Produzido em edição limitada, cada conjunto traz quatro peças, sem correspondência de formas e tamanhos, segundo ela, para questionar a monotonia das medidas padrões. Motivos caros ao mundo pessoal da artista, como o brasão de sua família, além da estrela, lembrança de sua infância vivida em ambiente comunista, compõem a iconografia aplicada às peças de porcelana. “É para uma refeição ritual”, pontuou ela.

Além de Marina, outros três artistas tiveram suas obras revisitadas pela coleção Bernardaud. O brasileiro Vik Muniz criou uma série de pratos esmaltados, de colorido explosivo, decorados com desenhos aparentemente abstratos, mas que, na realidade, reproduzem imagens reais de bactérias vistas sob um microscópio. Mais precisamente, de diferentes colônias delas, imersas em gel, que caminham para a borda dos recipientes, movidas por suas caudas propulsoras.

Em seus 70 anos, o escultor americano Alexander Calder criou cerca de 22 mil obras. De pequenas esculturas de arame a peças monumentais, mas também pinturas e itens menos conhecidos como joias, luminárias e móveis. Agora, em colaboração com a Fundação Calder, sua obra acaba de inspirar a criação de quatro novos pratos. 

“Trata-se, antes de tudo, de um tributo ao amor de Calder pela França. Um amor que ele sentiu desde sua chegada a Paris e que se manteve intacto por toda a sua vida”, afirmou Frederic, que selecionou para a coleção móbiles ícones do artista das décadas de 1940 e 1950, reproduzidos em preto e vermelho. 

Por fim, em comemoração à retrospectiva do artista, inaugurada no ano passado, no Centro Georges Pompidou, a Bernardaud retomou a obra de Jeff Koons para dela extrair uma de suas imagens mais emblemáticas: a de um elefante inflável; um motivo referencial para Koons, que também passou a estampar uma edição limitada. “Não poderia imaginar nada de mais apropriado para celebrar a obra deste grande artista, o sucesso de nossa colaboração e nossa firme determinação de continuar investindo em arte”, resume Frederic.