Arquitetura ao avesso

Ademir Correa - O Estado de S.Paulo

Henrique Oliveira discute o espaço urbano com a criação de obras tridimensionais, como a Casa Monstro, elaboradas a partir de madeira coletada nas ruas

O olhar parece golpeado diante desses macro-organismos de evolução quase-anárquica em proporções gigantescas; arabescos improvisados a desafiar seu entorno; cenários parasitários que se formam, temporariamente, e transformam, definitivamente. Essas sentenças dão pistas sobre a arte do paulista Henrique Oliveira, em especial de suas instalações tridimensionais, e ainda falam de apropriações ilegais das metrópoles, resquícios informais de invasão, ambientes inóspitos que indicam gambiarras de morar (essa também é a discussão levantada pelo artista). "É um paralelo entre uma estrutura orgânica que vai ganhando forma descontroladamente e as ocupações que acontecem dessa mesma maneira", ele explica. "É como tomar lugares abandonados, de uma forma simbólica", emenda.

 

Em seu ateliê no bairro da Lapa, Henrique guarda partes de suas intervenções e de sua matéria-prima – uma reserva técnica de compensado de madeira repousa no pátio desprotegida das intempéries do clima. "Pego dos contêineres, das construções, e trago para cá.

 

Descasco tudo, limpo e estoco. Esta é minha paleta de cores urbanas, são diferentes texturas e tonalidades", conta o criador de 36 anos. "Mas esse material sempre foi muito visado. O que faço é agrupá-lo em formatos diversos (com a ajuda de canos de PVC). A maioria que lida com isso, pelo menos até onde sei, segue o próprio corte da peça, criando quadrados e retângulos. Como tenho um background de pintura, algo mais gestual, comecei a testar as qualidades de flexibilidade e pensar em volumes e desenhos côncavos e convexos. Mas meus primeiros trabalhos exploravam também uma geometria reta", admite.

 

Nas paredes do espaço de criação, dois desses objetos desviam a atenção. "Eles têm um pouco de uma pintura 3D. Vêm da escolha de superfícies", conta. "É uma construção escultórica, a madeira é minha tinta, disposta em camadas, e ela tem esse apelo sensorial. Ainda está ligada a uma visualidade marginal, o que a torna muito sedutora", acredita. Alguns quadros dele estão sobre cavaletes – recebem pinceladas aqui e ali, apesar de a mistura colorida, com relevos muito próprios, já estar visivelmente terminada. E o barulho dos assistentes descarregando os retalhos contribui para um clima de marcenaria contemporânea, sem máquinas.

 

As criações em três dimensões, que fizeram de Henrique, natural de Ourinhos (interior de São Paulo), um expoente em seu meio, denotam uma tensão entre as artes plásticas e a arquitetura. "Elas reverberam o local em que são instaladas. Eu já fiz o primeiro trabalho, ainda na faculdade (de plásticas da USP), encaixado entre duas colunas. Por isso monto as estruturas onde elas serão vistas (o que leva cerca de duas semanas), faz muito mais sentido. Depois da exposição, desmancho tudo", revela, ciente de que essa atitude afasta possíveis colecionadores-compradores, mas permite que parte dos elementos, que ele leva para todos os países em que é convidado a expor, seja re-reutilizado.

 

Ele geralmente está envolvido em criações que beiram a arte pública – em tamanho – por respeitar as unidades de construção, já que os tapumes costumam medir 1,60 m x 2 m. "Mas hoje tenho duas vertentes: essas que exploram um aspecto de carne, um tecido podre, onipresente. E uma outra linha, feita com compensado flexível, que resulta em configurações menores e transportáveis" – essas sim passíveis de venda. Para o artista, há um contraste nítido entre o branco das galerias e o visual grotesco dos excedentes da rua. "Essas figuras ganharam contornos autônomos, em relação à situação como eram encontradas, e tornaram-se algo mais pictórico. A partir desse momento, estão prontas para voltar de onde vieram", prevê.

 

Ao explicar sua história – com receio, pois verbaliza um pensar artístico e as incertezas vindas, e originadas a partir, dele – vê suas interferências situadas entre a pintura (a sua), a arquitetura (já presente) e a escultura (que é formada). Diálogos subjetivos à parte, Henrique deixa aqui uma única confissão: antes de ser tomado pela arte, seu desejo mesmo era o de modificar o mundo como arquiteto.

 

 

Por Henrique Oliveira no 11º Festival de Cultura Inglesa, British Council

 

 

 

Instalação de compensado de madeira na Rice Gallery, em Houston, medindo 4,7m de altura e 13,4 m de comprimento

 

 

 

Tridimensional de Henrique exposto na Galerie Vallois, em Paris, em 2008