Algum parentesco?

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Designer em evidência no cenário francês, Inga Sempé comenta suas últimas criações para a marca Ligne Roset

A designer francesa Inga Sempé

A designer francesa Inga Sempé Foto: Marcelo Lima

A experiência com vários revestimentos – do veludo ao couro – foi primordial para o sucesso da parceria entre a designer Inga Sempé e seu principal editor, a também francesa Ligne Roset. Iniciado em 2006, o casamento entre seu traço forte e a praticidade perseguida pela marca não para de render bons frutos. Sobretudo na forma de novos estofados. “Minha inspiração vem da rotina em casa”, assume Inga, que rejeita, no entanto, qualquer vinculação feminina a seu processo criativo. “Creio que não há nada pior do que sugerir que exista algo particular na criação das mulheres”, afirmou nesta entrevista exclusiva ao Casa. 

Acredita que há algo que distinga a produção feminina no campo do design?

De forma alguma. Aqueles que pensam assim provavelmente acreditam que as mulheres desenham melhor flores e os homens, luminárias para escritórios. Homens muitas vezes desenham coisas leves e mulheres, coisas nada delicadas. Não vejo nenhuma razão em apontar qualquer distinção entre a criação feminina e a masculina, à parte pelas restrições a que as mulheres são submetidas: mesmo entre as competentes, projetos mais técnicos quase nunca são oferecidos a elas.

O modelo Beau, com estrutura de metal e acolchoado que unifica assento, braços e encosto 

O modelo Beau, com estrutura de metal e acolchoado que unifica assento, braços e encosto  Foto: Marcelo Lima

Tem maior prazer ou interesse em desenvolver algum objeto específico?

Gosto de desenhar qualquer tipo de objeto, desde que para uma empresa que seja apaixonada pelo que faz. Acabei de desenhar azulejos para uma marca italiana e só trabalhando com eles passei a me interessar verdadeiramente por azulejos. Mas se há um elemento com o qual adoro trabalhar é a luz. Talvez por ela ser tão técnica e, ao mesmo tempo, tão suave.

Dois de seus sofás, o Ruchè e o Beau, apresentam visual distinto e um mesmo princípio construtivo. Como isso se dá?

Graças à sua fina estrutura de madeira faia maciça, o Ruchè parece flutuar. Frente a toda essa delicadeza, porém, um tecido grosso e pesado repousa sobre suas pernas finas. Já no Beau, o material acolchoado aparece em escala ampliada, sustentado por uma estrutura metálica: um tipo de grampo que garante estabilidade a uma concha única, que reúne braços, assento e encosto. Apesar de robusta, ela é também suportada por pernas bastante delgadas. Não diria que são móveis de uma mesma família. Mas que guardam algum parentesco, isso guardam. 

O sofá Ruchè, com base de faia maciça e capa acolchoada

O sofá Ruchè, com base de faia maciça e capa acolchoada Foto: Marcelo Lima