A VIDA EM UMA TORRE DE LIVROS

- O Estado de S.Paulo

Numa town house em Boston, escada envolve uma estante com 15 mil exemplares e três andares de altura REPORTAGEM DE ELAINE LOUIE, FOTOS DE MICHAEL WESCHLER,DO THE NEW YORK TIMES

E m primeiro lugar, os livros. Depois, a arquitetura. Há sete anos, quando Nader Tehrani e Monica Ponce de Leon, sócios da Office dA, um escritório de arquitetura de Boston, foram convidados a reformar uma town house de cinco pavimentos no bairro de Back Bay, encararam um desafio singular: a casa pertencia a Elmar Seibel, um comerciante de livros raros sobre arte e arquitetura, e sua mulher, Azita Bina-Seibel, de 46, chef e restauratrice. A coleção pessoal de Seibel inclui pelo menos 40 mil livros sobre cultura persa e iraniana. A maior parte está em um depósito e, entre 14 mil e 15 mil, na casa. Há uma edição de 1491 do livro de medicina de Avicena, filósofo e médico do século 11, também conhecido como Ibn Sina; um testemunho da coroação de um xá, escrito por Jean Chardin, joalheiro francês, com dedicatória de Jean-Baptiste Colbert, ex-ministro da França; e um livro de cozinha do século 19 com 4 mil receitas escritas à mão de pratos servidos na corte do xá. A coleção começou com o nascimento do filho do casal, Kian, agora com 13 anos. Seibel, nascido na Alemanha, e Azita, no Irã, desejavam dar-lhe uma idéia das origens culturais da família materna. ''''A idéia original era criar algo para ele - mas a coleção criou vida própria'''', diz Seibel (Kian, que é fluente em farsi, ainda não leu nenhum dos livros, mas garante que o fará). Onde colocar, então, os livros? ''''O que mantém a casa junta é uma escada que envolve uma torre de livros com três andares de altura'''', diz Tehrani (a família vive nos últimos três pavimentos, enquanto a mãe de Azita e um inquilino ocupam, respectivamente, o primeiro pavimento e o térreo). A escada termina justamente abaixo de uma clarabóia. ''''A escada é o fator charme'''', diz Tehrani. É fácil pegar os livros a partir dela. Algumas prateleiras foram concebidas para conter livros em pé, enquanto outras são largas e rasas, para manuscritos e revistas. Azita, chef e co-proprietária do restaurante Lala Rokh, e da Bin 26 Enoteca, e Seibel queriam uma casa moderna que não parecesse um museu. E não parece. Os arquitetos se consideram modernistas e o que separa o moderno do tradicional, segundo Tehrani, é ''''a finura da construção - a tradicional é mais pesada''''. Eles também retiraram equipamentos excedentes, como maçanetas, da maioria das superfícies, mas o resultado não é frio. Ao contrário, a casa é quente, sensual, de cores suaves. Subir a escada central é sentir-se banhado pela luz suave da madeira dourada e brilhante. Os painéis são de compensado de plátano. Para a pintura das paredes, os arquitetos recriaram as cores da arte persa em tons pastel, colocando apenas 2% de vermelho, azul ou verde em cada lata de tinta branca. No quarto andar, os dormitórios de hóspedes são de um quase indiscernível verde-pálido. O quarto de Kian, no quarto pavimento, é apenas um fantasma do rosa. A cor profunda das obras de arte e dos tapetes fazem o contraste com a paleta. Além de trabalhar como chef-executiva de seus dois restaurantes, Azita cozinha para a família três noites por semana. ''''Gosto de tudo aberto. Não suportaria ter uma parede aqui'''', diz. Por isso, a divisória de sua cozinha não é apenas uma necessidade estrutural, mas uma visão modernista de uma grade iraniana de ferro. Embora a família tenha se mudado para a casa em 2003, os móveis italianos só foram encomendados dois anos depois (a reforma e a decoração custou cerca de US$ 3 milhões). E só no meio do ano passado, as cortinas feitas pela mãe de Azita - faixas de seda brilhante arrematadas por franjas também de seda - foram finalmente instaladas. A casa estava pronta.