A outra trama de um filme

Adam Begley - O Estado de S.Paulo

Stokesay Court, mansão que Caroline Magnus herdou em Shropshire, na Inglaterra, virou cenário de 'Desejo e Reparação', em 2006, e atração turística desde então

Imagine: sua vida monótona na cidade vira de cabeça para baixo quando herda, inesperadamente, uma vasta propriedade vitoriana na Inglaterra. Você faz de tudo para juntar dinheiro e consertar o telhado esburacado; depois, se estabelece precariamente no novo lar e deixa de lado o trabalho, os amigos e os planos. Por mais de uma década, luta contra as despesas para manter a construção. Então, o raio cai mais uma vez no mesmo lugar: uma companhia cinematográfica pede para usar sua casa como set da adaptação de um best seller. A produção paga um considerável número de zeros pelo aluguel e ainda ajuda a reformar o interior. Como prêmio extra, um pouco do glamour das estrelas respinga sobre você e sua subitamente famosa propriedade. Essa é a história hollywoodiana de Caroline Magnus, desde a noite em que, há 15 anos, chegando de uma festa em Londres, descobriu que ela e o irmão haviam herdado as terras de sua tia, incluindo a gigantesca Stokesay Court, em Onibury, no condado de Shropshire. A casa, construída em 1891 no estilo "jacobetano" (mistura dos estilos jacobino e elisabetano da arquitetura britânica), é o rico background da primeira parte de Desejo e Reparação, filme de Joe Wright baseado no romance de Ian McEwan, com Keira Knightley e James McAvoy nos papéis principais. Caroline está maravilhada, porque agora oferece visitas guiadas a quem quer conhecer os ambientes revestidos, aliás, de painéis de carvalho brilhante e admirar a fonte onde Keira se banhou. "O filme colocou a casa no mapa", diz Caroline, que cobra US$ 25 por cabeça, para grupos de 20 pessoas ou mais. No filme, Stokesay Court chama-se Tallis House, que McEwan descreve no romance como feita de tijolos vermelhos. As duas casas, tanto a ficcional quanto a real, foram construídas no final do século 19 por empresários vitorianos com pilhas de dinheiro novo. Embora Stokesay não seja nem atarracada nem feia, "não é bonita", diz McEwan. Lugar amigável Caroline, que cresceu numa antiga estalagem convertida em casa no condado de Kent, costumava pensar em Stokesay como uma mansão mal-assombrada. Mas não fica mais impressionada com a casa. "Agora eu a vejo como um lugar amigável", diz ela, que visitou a casa pela primeira vez quando tinha 15 anos a convite do irmão mais velho de seu pai, Sir Philip Magnus, e sua mulher, Jewell Allcroft. O tio, que morreu em 1988, era um eminente biógrafo, cortês e erudito. Sua tia era silenciosa e muito gorda. Nos quatro anos que separam a morte do marido da sua, Jewell, inválida, ocupava poucos dos 90 cômodos da Stokesay. Caroline a visitava ocasionalmente e nada na relação dela com a tia a preparara para o que iria acontecer. "Uma semana após a morte de minha tia recebi um envelope pelo correio com uma cópia do testamento e um nota de congratulações. Nenhuma explicação a mais", conta. Jewell havia deixado Stokesay, junto com outras propriedades, para Caroline e seu irmão, Laurence, e ela decidiu ficar com a casa como sua parte da herança. Embora a decisão tenha significado desistir do emprego de head hunter e mudar-se de Londres para Shropshire, a três horas de distância da capital inglesa, ela não se arrepende. "Se não ficasse com a casa, iria passar o resto da vida imaginando como teria sido morar nela."