A classe que vem do frio

Roberto Abolafio Jr. - O Estado de S.Paulo

Peças escandinavas de madeira laminada viram tendência com o retorno da estética dos anos 50

Vai moda, vem moda, e o mobiliário escandinavo continua com sua beleza à prova do tempo. Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e, por extensão, Finlândia mantêm até hoje, no norte da Europa, uma produção bem particular em relação ao cenário mundial. Os traços curvos e limpos, a madeira clarinha e a busca incessante pelo conforto sobressaem, entre outras características, no design que vem do frio. Uma das tendências na decoração é reler os bons tempos da década de 50 - anos dourados também para as peças de madeira laminada criadas na Escandinávia. Por isso, agora elas devem extrapolar o gueto dos iniciados. "Mas é difícil que se tornem populares", considera o proprietário da Arquias e representante da finlandesa Artek, o designer Kelley White. Além do preço alto, na maioria dos casos há um obstáculo quase intransponível para chegar à massificação: reproduzir, mesmo a partir de desenhos de domínio público, a maestria das técnicas de curvar madeira e dos encaixes desenvolvidas por designers e manufaturas da região. "As necessidades desse ?homem do frio? deram o caráter dos produtos ", analisa o arquiteto Marcelo Ferraz, da Marcenaria Baraúna. Para ele, os trabalhos denotam um conhecimento ancestral daqueles povos carentes, literalmente, de calor. Daí o uso de palha, couro, lã e muita madeira, embora haja poucas espécies por lá. A partir do artesanato local, um dos precursores do moderno design escandinavo foi o finlandês Alvar Aalto. Entre as décadas de 30 e 50, o arquiteto aprimorou, em estruturas exemplares, um jeito todo especial de moldar, na prensa, lâminas de madeira, sobretudo bétula. Há importantes discípulos de Aalto: os dinamarqueses Finn Juhl e Hans Wegner, além do sueco Bruno Mathsson. Peças deles estão à venda na Passado Composto Século XX. "Juhl chegou a usar jacarandá, importado do Brasil nos anos 50, para contrastar com as madeiras pardas abundantes ali, como beech e carvalho", comenta a proprietária da loja, Graça Bueno. Quem costuma visitar esse endereço é o arquiteto e designer Arthur Casas, que adora o trabalho de Wegner. "É um desenho perene e inconfundível", explica ele, que ainda lembra o aspecto de sustentabilidade das peças produzidas na região com madeiras ecologicamente corretas. "Sem contar que um móvel desses é para sempre." Veterano do design brasileiro, o arquiteto e designer Jorge Zalszupin também admira esse tipo de mobiliário. "Visitei uma fábrica da região e constatei uma preocupação extrema com qualidade e acabamento", explica. Contaminado pela experiência, o profissional desenhou a poltrona Dinamarquesa (na Etel Interiores, por R$ 5.985). O arquiteto e designer carioca Sergio Rodrigues é outro ícone que nota certa influência em seu trabalho: "Embora use referências nacionais, acho que tem algo de escandinavo na minha poltrona Oscar (na Dpot, por R$ 1.998)". Tão inovadores quanto Aalto, os dinamarqueses Arne Jacobsen e Verner Panton também marcaram época, nem sempre usando madeira. A modernidade escultórica do primeiro está, por exemplo, na célebre poltrona Swan, de 1955 (na Forma, a partir de R$ 15.897). Já Panton é mais conhecido aqui pela disseminação das cópias de sua cadeira empilhável, de 1959 - o primeiro assento feito todo de fibra de vidro na história do design (da alemã Vitra, custa a partir de R$ 5.985 no Volume B). Os dois autores até hoje conquistam fãs , como o estilista André Lima. "Quando a gente vê numa casa peças escandinavas, principalmente as não óbvias, logo percebe atitude", opina ele, que comprou recentemente um quadro criado por Panton. Não é só. Tapeçarias, tecidos, peças de vidro e luminárias são outros pontos fortes da produção nórdica. Toda essa herança é às vezes reinterpretada, como se vê nas poltronas da norueguesa Ekornes, que lembram uma "cadeira do papai" moderninha. Nelas, a madeira curvada está na plataforma, mas o assento almofadado, adaptável a qualquer posição, remete a um quê de conforto à americana. Como se trata do maior exportador escandinavo de móveis, dá para entender. O diretor-presidente da empresa na América Latina, César Garrubo, de 41 anos, conseguiu compor um preço "mais acessível" aos consumidores brasileiros. O segredo? As capas de couro, material originalmente exportado daqui para a fábrica na Noruega, agora são feitas no Brasil. "Com isso, o preço caiu cerca de 30%", conta ele. O modelo básico da marca custa cerca de R$ 5.500. Uma curiosidade é que o trabalho desenvolvido pelos profissionais brasileiros é bem conhecido na Escandinávia. Arthur Casas, por exemplo, foi convidado por uma loja sueca para vender lá seus novos móveis. Já a Casa Cor, maior evento de decoração do País, terá uma versão em Estolcomo de 1º de setembro a 14 de outubro próximos. "Eles querem importar o modelo de mostra que fazemos aqui", explica Roberto Dimbério, diretor do evento, para quem o Brasil deveria ficar mais antenado, na mesma medida, com as coisas que vêm de lá.