A CASA QUE É SÍMBOLO NO PERU

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

No centro de Lima, a Casa de Aliaga, construída por um companheiro de lutas de Pizarro, preserva a história

E stamos no Peru, mais precisamente em Lima, bem no centro da cidade, a poucos metros do palácio onde despacha o atual presidente da República, Alan García, e nas proximidades de uma grande praça onde impera uma estátua de Francisco Pizarro, famoso explorador espanhol e conquistador do império inca. Ali juntinho, sobrevivendo às intempéries do tempo, há quase cinco séculos, e em terra onde as raízes indígenas ainda são muito evidentes na maioria da população, está a casa de um amigo seu e companheiro de lutas: a chamada Casa de Aliaga. Foi Francisco Pizarro quem concedeu o terreno (aliás, vizinho da casa que construiu para si) ao colega de batalhas, o fidalgo Jerónimo de Aliaga, um descendente de aragoneses nascido em Segóvia, na Espanha, e que o ajudou não só a capturar os incas como a fundar a Cidade dos Reis, hoje Lima, em 18 de janeiro de 1535. Nesse exato local, onde um desenho demarcando os terrenos e a passagem dos canos de água foi encomendado por Pizarro a Diego de Aguero e destinado a ser o centro da capital do Vice-Reinado do Peru, a Casa de Aliaga sobreviveu e viu passar 16 gerações de uma mesma família que até hoje se preocupa em preservá-la. Quem mora lá, atualmente, é Gonzalo de Aliaga Ascencio. E até porque ninguém é de ferro, criou para si e para a mulher, Ana Maria, com quem se casou nos anos 70, um apartamento mais moderno e confortável, encravado no meio dos múltiplos cômodos desta casa ancestral. Foi Gonzalo quem também conseguiu financiamento para a edição de um belo livro sobre a propriedade. Foram cinco séculos de muita resistência, não só ao progresso e aos desgastes naturais, inclusive incêndios e terremotos, mas também a muito ódio por parte de uma população ressentida pelos abusos perpetrados pelos espanhóis. A casa, cumprindo seu destino, assistiu a comemorações, nascimentos, mortes, disputas sobre heranças, a acréscimos em detalhes de arquitetura e decoração e, hoje, apesar de habitada pelos descendentes diretos, é uma atração turística e cultural que pode ser visitada com hora marcada. De fora, poderia passar despercebida. Numa rua de pedestres e comercial movimentada, a fachada é assimétrica, tem belas proporções e balcões com balaústres em madeira talhada. No nível da rua, o portão em estilo neoclássico que dá acesso à casa, em madeira entalhada com as iniciais dos Aliagas, e decorado com pequenas cabeças de figuras da mitologia grega e uma moldura de período mais antigo, chama pouco a atenção, pois acabou espremido pelo comércio em volta. Ao adentrá-lo, no entanto, estaremos diante de uma imponente escadaria central em mogno e mármore de Carrara que, por sua vez, vai nos levar a um segundo nível com pátios a céu aberto, ao portão principal da casa propriamente dita, que neste andar tem as paredes externas pintadas de amarelo, e aos grandes salões e outros espaços internos, alguns iluminados por clarabóias. Consta que seria reservado apenas aos fundadores da cidade o privilégio de uma escadaria como essa, majestosa e tão imediata ao portão da rua. Muito mármore, muita pedra, muita madeira talhada, muito azulejo crioulo pintado, muitas janelas com molduras e vidros trabalhados, muitas portas entalhadas de períodos variados dividindo os ambientes, móveis em madeira escura, camas com dossel, revestimentos em couro lavrado, tudo ali é exemplo da linguagem e do estilo arquitetônico que o império espanhol e depois a república impuseram como sendo o belo e o desejável, num país cujo povo local de origem inca já detinha e mantém uma rica e tradicional linguagem estética. Religião A capela toda revestida em lambri de madeira, lajotas de barro forrando o chão e teto pintado de azul coberto por frisos folheados a ouro formando um desenho quadriculado, mais os objetos de arte sacra espalhados pela casa, como esculturas e pinturas de santos, relicários e crucifixos de marfim, evidenciam a forte presença do catolicismo, a religião então tão cultuada pelos espanhóis. Embora considerada peculiar em relação à maioria das casas e construções antigas de influência espanhola no Peru, a Casa de Aliaga, como boa casa colonial, tem também o seu belo e tradicional pátio interno. O curioso é que, como o corpo principal da casa está situado no segundo andar, o acesso ao jardim desse pátio, cheio de plantas viçosas e onde impera um grande fícus, deve ser feito por uma pequena escada interna ou então pela área de serviços no nível da rua. Ao pé da árvore, ainda ali, pequenos seixos rolados e pedacinhos de osso, que nas construções coloniais eram usados para abafar o barulho feito pelos cascos dos cavalos. A passagem dos anos não teve como impedir a influência de múltiplos estilos europeus. O hall de entrada tem ares de império francês. Há portas georgianas, com detalhes em madeira pintada. Na sala da lareira, em cuja parede está o retrato do fundador e primeiro morador, Jerónimo de Aliaga, imperam os azulejos coloridos de influência sevilhana e é talvez a peça mais aconchegante da casa. Superimponente é o grande salão, com rico assoalho com desenho traçado por diversos tons de madeira, espelhos com molduras, frisos dourados e grandes lustres que pendem do teto decorado. É ali que se encontra a maioria dos retratos a óleo dos incontáveis habitantes desta casa, inclusive o de Juan José de Aliaga y Sotomayor, o sétimo descendente, conhecido por ter gasto 15.900 pesos para reconstituir a casa em 1746, depois de um terremoto, harmonizando estilos e dando-lhe a feição atual. Para chegar à sala de jantar, com as paredes pintadas de vermelho e móveis bastante pesados, é preciso subir uma escada com degraus forrados com carpete azul, situada no fundo de um largo corredor central com paredes também em azul e decorada, apesar do espaço restrito, por quatro colunas e duplo corrimão em madeira trabalhada. Apesar do excesso de detalhes e de informação, a visita vale pelo interessante passeio pela história de uma família, de uma cidade e de um rico país vizinho. A mesma estátua de Cristóvão Colombo que, ao lado da porta de entrada superior nos recebeu, estará ali a postos, ao término da visita, para nos lembrar que, não fosse ele, a história deste nosso continente poderia ter sido outra.