Trabalhadores de escritório se levantam contra sedentarismo

Stephen Mihm - O Estado de S.Paulo

A sabedoria popular logo passou a associar ao trabalho sedentário males de todo tipo

Ficar sentado ou de pé? Eis a questão para um número cada vez maior de trabalhadores de escritório, após uma saraivada de relatórios indicando que permanecer sentado na escrivaninha durante longos períodos pode ser prejudicial à saúde, resultando num maior risco de doença cardíaca, câncer, diabetes e até morte prematura. O alarme é o motivo que levou os departamentos de recursos humanos a apresentarem demandas pelas chamadas escrivaninhas eretas, que supostamente tornariam menos perigosas as tarefas cotidianas de um escritório comum.

O íntegro e saudável trabalho no campo irrigava todas as partes do corpo com o sangue da vida. Mas, aparentemente, o trabalho cerebral era ruim para… a cabeça

O íntegro e saudável trabalho no campo irrigava todas as partes do corpo com o sangue da vida. Mas, aparentemente, o trabalho cerebral era ruim para… a cabeça Foto: Cross Duck/Creative Commons

Rebeliões contra o tempo sentado em demasia não são novidade. Desde meados do século 19, os americanos se viram tomados pelo medo de uma mudança para a vida mais sedentária dos trabalhadores de escritório levar todos a uma morte prematura. Já naquela época tais suspeitas tinham fundamento. Mas sua intensidade também refletia uma preocupação mais profunda com a transformação dramática da natureza do trabalho na era moderna.

Dois séculos atrás, uma única ocupação - a agricultura - envolvia mais de 90% da força de trabalho. A vida na fazenda pode soar como um idílio perdido para os habitantes urbanos de hoje, mas, para muitos daqueles que trabalhavam com a terra, o cotidiano era de trabalho braçal extenuante que mal resultava no suficiente para a subsistência. Não surpreende que, diante da oportunidade de trabalhar nas cidades, seja como escreventes e funcionários de escritório, ou até como operários de fábrica, muitos tenham deixado o campo sem olhar para trás.

Mas eles deixaram para trás mais do que uma vida de trabalho duro. Perderam também um regime constante de exercícios extenuantes. Como resultado, as celebrações da vida moderna logo foram manchadas pelo temor de a transição da enxada para a escrivaninha deixar esses novos “trabalhadores cerebrais” enervados e fracos, embora tais preocupações tivessem como base pesquisas científicas de baixa credibilidade.

“A natureza do homem é constituída de modo a suportar o trabalho extenuante e contínuo”, escreveu um comentarista em 1859, “mas, quando gasta a maior parte de seu tempo com o corpo imóvel - e, mais especificamente, quando o cérebro está trabalhando enquanto isso, a regra mestra da boa saúde é violada de dois modos”.

Havia algo de profundamente antinatural - e até antimasculino - na nova maneira de trabalhar. O íntegro e saudável trabalho no campo irrigava todas as partes do corpo com o sangue da vida. Mas, aparentemente, o trabalho cerebral era ruim para… a cabeça. Quando alguém permanecia sentado à escrivaninha por duas horas o mais, o comentarista escreveu, “o sangue precisa fluir para algum lugar; e boa parte dele vai para a cabeça - não apenas o necessário, como supúnhamos, mas um volume ainda maior, estabelecendo assim uma tendência à congestão”.

A sabedoria popular logo passou a associar ao trabalho sedentário males de todo tipo. Um dos maiores críticos do trabalho sentado, o dr. Dudley Sargent, observou em 1886 que a “vigorosa circulação cerebral” dos trabalhadores intelectuais era algo positivo em demasia, levando a um estado de “congestão passiva”, bem como “uma confusão de ideias, incapacidade de pensar, dor de cabeça, e outros efeitos desagradáveis”. Sem tratamento, o resultado poderia ser “a incapacitação permanente da consciência”.

Sargent, que acabaria no comando do ginásio da Universidade Harvard, cresceu fazendo trabalho manual. Ele se convenceu que a nova geração de homens que trabalhavam na escrivaninha corria o risco de “dispepsia, distúrbios funcionais do coração, retardo no funcionamento do fígado, e doenças pulmonares”. Outros reformistas concordaram, acrescentando males como “frieza nos pés, congestão das engrenagens internas do tronco, e vários graus de desconforto estomacal e cerebral”.

Tanto no passado como hoje, a solução era clara e direta: fazer exercícios durante o dia. Sargent chegou ao ponto de inventar uma série de aparelhos que, com exceção de alguns recursos e materiais antiquados, não pareceriam fora de lugar numa academia moderna de CrossFit. E para os trabalhadores de escritório que não podiam passar no ginásio para malhar, Sargent e seus seguidores tinham um conselho mais prosaico: ficar de pé, e não sentado.

“O homem pensa tão bem sentado quanto de pé, ou até melhor”, escreveu um discípulo de Sargent, o professor William Blaikie, em 1874. Da mesma maneira, em 1901, Alice Worthington Winthrop aconselhou os “trabalhadores cerebrais” a terem “duas escrivaninhas, sendo uma para trabalharem de pé”. Na verdade, foi durante essa época que os inventores patentearam “escrivaninhas eretas” especiais que poderiam ter a altura ajustada.

Todos esses conselhos estão ganhado nova vida, e com razão. Se o diagnóstico dos potenciais riscos à saúde não continua válido, o remédio sim, embora as justificativas médicas tenham mudado. Em termos simples, permanecer muito tempo sentado sem se mexer faz mal para o corpo e para a cabeça.

Mas nossa nova preocupação com os efeitos negativos de ficar sentado provavelmente reflete nossa inquietação coletiva com as mudanças na natureza do trabalho nos Estados Unidos. Não faz muito tempo que muitos americanos exerciam ocupações fisicamente exigentes nas fábricas, usinas e minas do país. Mas esses empregos quase desapareceram, substituídos por fileiras e mais fileiras de pessoas sentadas debruçadas sobre telas de computador.

No geral, as condições de trabalho melhoraram muito. Mas algo também se perdeu. E não é trabalhando de pé que vamos mudar isso.

O autor é professor assistente de história da Universidade da Geórgia.

Tradução de Augusto Calil