Sim, eu sou gorda. Está tudo bem. Eu afirmo isso

Sarai Walker - O Estado de S.Paulo

Para a maioria das pessoas, 'gorda' não pode ser nada além de um insulto

'Tornei-me uma involuntária embaixadora da revolucionária ideia de que não há nada errado em ser gorda e mulher'

'Tornei-me uma involuntária embaixadora da revolucionária ideia de que não há nada errado em ser gorda e mulher' Foto: Marjan Lazarevski/ Creative Commons

"Por que você usa a palavra gorda?"

Uma mulher de um clube do livro me fez esta pergunta recentemente. Eu estava numa sala de estar conversando, pelo Skype, a respeito do meu livro com um grupo de mulheres profissionais que bebiam vinho e comiam petiscos enquanto esperavam minha resposta. Sabendo que meu rosto era exibido num enorme monitor de tela plana, eu sorri para esconder meu pavor, então respondi a ela e ao resto do grupo no piloto automático. 

Eu tenho sido perguntada diversas vezes sobre o uso que faço da palavra por meus leitores e por jornalistas. Às vezes, eu tropeço na palavra, enquanto ela trava na garganta de meus interlocutores. 

Muitas pessoas ficam assustadas com meu uso desavergonhado de "gorda" para descrever não apenas a heroína do meu livro, mas meu próprio corpo. Para a maioria das pessoas, "gorda" não pode ser nada além de um insulto. Então, eu venho explicando continuamente que ativistas usam a palavra com orgulho, num esforço para tirar o estigma não apenas a palavra em si, mas, por extensão, do corpo gordo. 

No começo, eu ficava entusiasmada ao ter esse tipo de conversa. Mas agora, não posso negar, fiquei desiludida. Após meses testemunhando tanta ansiedade sobre o inofensivo adjetivo de cinco letras - não apenas a palavra, mas a gordura em si - é aparentemente tão horrível que chega a ser indizível. 

No mês passado, a Mattel lançou uma nova Barbie "curvilínea". "Curvilínea é o único eufemismo lisonjeiro para uma mulher que "está um pouquinho gorda"; uma "Barbie gorda", obviamente teria sido o beijo da morte. 

Numa matéria de capa revista Time a respeito da boneca, meninas pequenas que testavam o brinquedo na sede da empresa riam entre si por causa da Barbie mais gordinha. Esta nova Barbie é realmente como uma aproximação, em forma de brinquedo, do tamanho de uma mulher mediana, mas parece grande quando comparada às proporções irreais da Barbie original. As garotas veem a nova boneca como gorda, mas hesitaram em usar esta palavra na frente dos adultos. Uma menina soletrou "G-O-R-D-A", da mesma forma que faria com outros palavrões. "Não quero ferir os sentimentos dela", afirmou. 

Os norte-americanos são obcecados pela obesidade, embora pessoas realmente gordas estejam ausentes de nossa paisagem cultural. Com poucas exceções, a maioria das pessoas gordas que vemos na mídia e na cultura pop odeiam seus corpos. Elas vão dos concorrentes que desfilam como animais num circo do The Biggest Loser a celebridades que se reúnem em comerciais que falam sobre perda de peso em cadeia nacional de televisão. Os norte-americanos anseiam e desfrutam do espetáculo que é ver uma miserável pessoa gorda. Portanto, desafiar esta narrativa equivale a um ato radical. 

Conversar com as pessoas sobre meu livro me ensinou que podemos pensar que vivemos numa era na qual nada nos choca, mas um romance sobre uma mulher de 150 quilos que aprende a amar seu corpo como ele é - sem perder peso - é um grande tabu. Desde que eu me atrevi a não apenas escrever esta história, mas também aparecer em público como uma mulher gorda que sou, recusando-me a pedir desculpas por minha existência ou esconder meu corpo num saco de estopa, tornei-me uma involuntária embaixadora da revolucionária ideia de que não há nada errado em ser gorda e mulher. Eu recebo perguntas mais apropriadas para um terapeuta ou para um nutricionista do que para uma escritora. Sou perguntada a respeito da minha história de lutas com dietas e com minha imagem corporal. Sou molestada por uma multidão de trolls dedicados a assediar moralmente mulheres gordas na internet. 

Meses depois de o livro ter sido publicado nos Estados Unidos, eu fiz uma viagem à Austrália para divulgá-lo. Durante uma entrevista de rádio ao vivo, no meu primeiro dia no país, outro escritor, Will Self, sequestrou a discussão a respeito do meu livro para me ensinar o quão insalubres e feias são as pessoas gordas. Ele chegou a citar o Holocausto para fazer a correlação entre tamanho corporal, exercícios e consumo de comida ("Você nunca viu ninguém gordo sair de Auschwitz", disse ele, citando uma pessoa que trabalhava com envolvidos com drogas). Para espalhar o temor a respeito de um iminente apocalipse da gordura, ele afirmou, entre outras coisas, que "estatisticamente", no local onde eu vivo, na Inglaterra, até 2030 ninguém mais vai andar. 

Em outro programa eu debati com um especialista em obesidade e ainda em outro eu recebi perguntas feitas por telefone de ouvintes que queriam saber se ser gordo era ok, um debate que aconteceu após uma discussão sobre a guerra na Síria. 

Ó último evento da minha viagem pela Austrália foi um discurso no Festival de Ideias Perigosas. No palco da Opera House de Sydney, eu iniciei minha fala sobre como é ok ser gorda ao compartilhar um exemplo da minha própria vida. Anos atrás, eu postei um link no Twitter de uma entrevista de 1969 feita com Jim Morrison, na qual ele disse "Gordura é bonito". Minutos após postar o link, um amigo respondeu irritado que ser gordo não é saudável porque causa pressão alta e outros problemas de saúde. 

A resposta, eu disse aos expectadores, é um exemplo do que eu chamo de "Síndrome da Loucura da Gordura", na qual cada pessoa que se considera de mente aberta, uma pensadora crítica sente-se ofendida se a gordura é tratada de forma positiva. 

Durante a parte do evento dedicada a perguntas e respostas, as pessoas se levantaram, uma após a outra, e fizeram comentários negativos a respeito do peso. Eu me senti como uma bruxa cercada por aldeões armados com suas tochas. Ficou claro que até mesmo para muitos cidadãos urbanos e sofisticados que pagaram para participar de um festival sobre ideias difíceis, era praticamente impossível pensar sobre gordura de uma forma que não fosse ruim. Como minha protagonista percebe no livro, uma pessoa nunca pode ser simplesmente gorda: um corpo gordo sempre precisa ser consertado.

Nos bastidores, o moderador do evento perguntou se eu estava bem. Não era a primeira vez que alguém, durante a viagem, havia me puxado de lado para fazer esta pergunta. Eu disse que estava bem mas, no hotel, naquela noite, eu me arrastei para a cama, aliviada com o fato de não ter mais de cumprir o papel de gorda profissional. Eu queria ir para casa e me esconder. E estava envergonhada desta resposta. Eu escrevi um romance para dar voz às mulheres gordas, mas fiquei exausta ao usar a minha. Eu havia começado a me sentir a gorda de um show de horrores, em exibição para o divertimento do público. 

As linhas de frente do debate sobre obesidade são um lugar horrível para qualquer um que desafie a difundida retórica de que "gordura é ruim" e para quem afirma que o principal problema para as pessoas gordas não são seus corpos, mas o ódio e os insultos recebidos da sociedade. Um lado do debate inclui as indústrias multibilionárias de perda de peso e de assistência médica e seu fanatismo arraigado. Do outro lado, há um pequeno e relativamente impotente grupo de ativistas. 

No centro deste debate sobre obesidade está uma professada preocupação com a saúde, como se a dignidade de qualquer grupo devesse depender do fato de seus integrantes serem considerados saudáveis. 

Mas questões de saúde não são tão claras e o movimento Health at Every Size (Saúde em Qualquer Tamanho) apresenta avaliações racionais a respeito da abordagem estreitamente focada do peso em relação à saúde. 

Numa cultura na qual a maioria das pessoas gordas da mídia não têm cabeça - as bolhas anônimas, decapitadas, intercambiáveis cujas fotos são acompanhadas por assustadoras histórias sobre obesidade - uma mulher gorda com voz pode ser ameaçadora, não apenas para valentões, misóginos e integrantes da cruzada antigordura, mas para muitos daqueles que se consideram iluminados também. Às vezes acho que seria mais fácil ser uma dessas pessoas gordas anônimas e sem cabeça. Mas se você não tem cabeça, não pode manifestar-se.

Tradução de Priscila Arone