Será que os dispositivos de fitness ajudam mesmo a emagrecer?

Aaron E. Carroll - The New York Times

Muitos defendem que a busca pelo corpo ideal pode ter a tecnologia como aliada

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. Foto: Pixabay

Uma vez, fui criticado por causa de um artigo no qual mostrei (com provas) que o exercício não é a chave para a perda de peso; a dieta é. Muitos leitores não conseguem aceitar a ideia de que adicionar atividade física e, portanto, queimar mais calorias, não necessariamente se traduz em resultados na balança.

Bom, lá vamos nós de novo, porque algumas dessas pessoas também acreditam que os dispositivos de fitness – Fitbit, Vivosmart, Apple Watch – ajudam na perda de peso. Infelizmente, as evidências também não comprovam essa crença.

Já faz tempo que tentam provar que esses dispositivos conseguem promover a perda de peso. Em 2011, um estudo comparou quatro grupos que receberam uma mistura de programas comportamentais de perda de peso e o uso de uma braçadeira que media a atividade e o gasto de energia. Todos os grupos emagreceram, mas aqueles com tecnologia e programas comportamentais perderam mais peso. Porém, o tamanho da amostragem de cada grupo (menos de 50 pessoas) e a grande taxa de abandono devem moderar o entusiasmo. A amostragem também era principalmente feminina e mais do que três quartos dela tinham formação superior, então os resultados podem não ser inteiramente generalizados.

Em 2015, outro estudo, o teste PACE-Lift, também foi inconclusivo. Pesquisadores dividiram aleatoriamente 250 pessoas com idades entre 60 a 75 anos em dois grupos. O primeiro recebeu quatro consultas de atividade física dadas por enfermeiros de cuidados de saúde primários durante três meses, um pedômetro e uma atividade física diária; o segundo recebeu "cuidados habituais". Todos os pacientes receberam acelerômetros para medir sua atividade, embora apenas o grupo de controle visse os resultados. Um ano mais tarde, aqueles no grupo do pedômetro estavam dando em média cerca de 600 passos a mais por dia e faziam cerca de 40 minutos de atividade física por semana.

Mas é difícil saber em um teste como esse até que ponto o resultado foi por causa do pedômetro e do feedback ou por causa das visitas da equipe de enfermagem e treinamento.

Seria preciso um estudo maior e bem concebido, que verdadeiramente esmiuçasse a contribuição da tecnologia "vestível" para programas de emagrecimento. No ano passado, os resultados desse estudo, o IDEA, foram publicados.

Ele foi feito na Universidade de Pittsburgh, entre 2010 e 2012, e envolveu mais de 470 adultos entre as idades de 18 e 35 anos. Todos fizeram uma dieta de baixa caloria, tinham sessões de aconselhamento em grupo e foram orientados a aumentar a atividade física. Seis meses depois da intervenção, todos receberam sessões de aconselhamento por telefone, lembretes via mensagens de texto e material de estudo on-line.

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E nisso, metade das pessoas também recebeu dispositivos tecnológicos que monitoravam sua atividade e estavam conectados a um site que organizava e analisava as informações. Todos os participantes foram acompanhados por 18 meses.

Após dois anos – tempo longo para um estudo de perda de peso –, aqueles sem acesso à tecnologia perderam uma média de 5,9 kg. Os que a usaram perderam uma média de 3,5 kg.

É difícil aceitar esses fatos, então vou citar os resultados novamente: as pessoas que usaram a tecnologia vestível durante um ano e meio emagreceram significativamente menos que as que não a usaram.

Você pode argumentar, e com razão, que o principal motivo para o uso dos dispositivos não é a perda de peso, é um estímulo à atividade física, mas mesmo em relação a isso, não funcionaram tão bem quanto o que seria esperado. No teste IDEA, aqueles que usaram a tecnologia não eram fisicamente mais ativos do que os que não a usaram. Nem estavam em melhor forma.

Grande parte das novas tecnologias, dos suplementos dietéticos e das dietas novas é vendida ao público com pouca pesquisa real que ateste seu valor. A tecnologia de vestir para incentivar a boa forma não é diferente. De alguma maneira, nos últimos anos, todos passaram a aceitar o fato de que é preciso dar dez mil passos por dia, mas não há nenhuma magia por trás desse número. Não há nenhuma razão para acreditar que bater essa meta arbitrária seja, de alguma forma, uma mudança de vida.

O exercício é bom por si só. Claro, muita gente pode gostar de usar essa tecnologia sem vinculá-la à perda de peso. Eu já tive um Fitbit, um Nike FuelBand e um Apple Watch. Ainda uso o relógio porque gosto de muitas das suas funções. Quando o comprei, gostei da forma em que ele seguiu meus 30 minutos diários de atividade física e me lembrava de que era preciso me levantar de vez em quando.

Mas ao longo do tempo, percebi que de fato não preciso disso. Depois de alguns meses, fazer 30 minutos de atividade física por dia (a quantidade recomendada) se tornou parte da minha rotina. Aprendi a ser menos sedentário e a me mexer mais. Já não precisava dos lembretes.

É possível que os dispositivos tenham me ajudado a incluir a atividade física regularmente no meu dia a dia; é possível que tenham um benefício, mas minha experiência é apenas um caso, e não há como descobrir se eu me tornaria mais ativo sem os dispositivos. Para isso, precisamos de um teste. Os que existem (como o IDEA) argumentam que tais dispositivos não fazem as pessoas se exercitarem mais.

Porém, eles não fazem mal. Além de gastar dinheiro, não há nada de ruim em ver se será possível aumentar sua atividade ao longo do tempo – mas se seu objetivo for emagrecer, então seria bom pensar duas vezes antes de usar um desses dispositivos. A evidência sugere que você pode se sair melhor sem ele.