Pessoas cujos pais brigavam muito costumam interpretar expressões neutras como raiva, diz estudo

- The New York Times

A sensação de que todo mundo parece estar sempre tão bravo com você é comum e pode ser causada por situações vividas na infância

Uma série de expressões faciais usadas no estudo.

Uma série de expressões faciais usadas no estudo. Foto: University of Vermont via The New York Times

Por que você parece tão bravo? Esse artigo sequer começou e você já está desaprovando-o. Por que eu nunca consigo algo bom de você? Eu vejo em seu rosto.

Se isso não soa familiar, bom para você. Você não precisa disso. Para o resto de nós, pode ser de grande ajuda saber que algumas pessoas parecem ter dificuldade em interpretar expressões neutras como neutras, mesmo que elas sejam ótimas ao interpretar outras expressões faciais.

Na última década, psicólogos têm tentado entender por que isso ocorre. Um estudo publicado em março no Journal of Social and Personal Relationships sugere que algumas pessoas que cresceram com pais que brigam muito nunca aprenderam muito bem como ler essas expressões faciais no 'meio termo', talvez porque elas gastavam muito tempo procurando por sinais de conflito.

"Expressões de raiva poderiam ser um sinal para elas irem para seus quartos", disse Alice Schermerhorn, psicóloga da Universidade de Vermont e autora do estudo. "Para comparação, expressões neutras não oferecem muita informação, então crianças podem não valorizá-las e, por isso, não reconhecê-las muito bem".

Essas descobertas construídas em pesquisas anteriores indicando que depressão, ansiedade e irritabilidade podem afetar como uma pessoa percebe o rosto das outras. Também mostrou que adultos que foram expostos à violência, negligência ou abuso físico na infância são mais suscetíveis a ver hostilidade mesmo quando não há. Isso pode criar um ciclo de reações negativas.

"Se você acha que as outras pessoas estão bravas, você pode responder de forma brava também", disse Abigail Marsh, diretora do Laboratório de Neurociência Social e Afetiva na Georgetown University. O que interessou Alice foi descobrir se um problema ainda mais comum, o conflito entre pais, poderia causar isso.

Ela testou isso analisando 99 crianças, de 9 a 11 anos, que vivem em casas com seus dois pais biológicos. Depois que as crianças responderam a um questionário com perguntas como "meus pais ficam muito bravos quando eles discutem", ela testou a habilidade de captar emoções em uma série de fotos.

A hipótese original dela foi que crianças que presenciam mais conflitos entre seus pais seriam piores em ler expressões neutras, de felicidade e de raiva. O que ela descobriu é que, na verdade, tanto crianças com pais que discutem muito quanto aquelas que vivem num ambiente mais calmo, conseguiam discernir as expressões de felicidade e raiva. "Elas apenas não conseguiram identificar as expressões neutras", ela disse.

O estudo tem suas limitações: as crianças estavam reagindo a fotos posadas pelos mesmos atores jovens e brancos. Na vida real, é claro, as expressões estão se movendo – algo que limita as aplicações de muitos estudos nesta área. As crianças também interpretaram mal o neutro como felicidade de forma tão frequente como interpretaram mal o neutro como raiva, resultados que diferem de outros estudos nessa área. E é provável que essa tendência mude conforme elas crescem, Alice ressaltou.

Uma série de expressões faciais usadas no estudo.

Uma série de expressões faciais usadas no estudo. Foto: University of Vermont via The New York Times

De qualquer forma, as descobertas apoiam um ponto que outros pesquisadores nesta área já haviam levantado: aqueles que mais precisam de uma expressão bondosa geralmente têm mais dificuldade em reconhecer uma. Um fenômeno paralelo foi observado para sabotar pessoas que sofrem de depressão e ansiedade.

"Pessoas com ansiedade têm mais facilidade em enxergar o medo quando ele não existe, e classificar de forma errada expressões neutras como raiva, medo ou coisas negativas em geral", disse Abigail, a professor de Georgetown, que recentemente publicou um livro chamado The Fear Factor: How One Emotion Connects Altruists, psychopaths and Everyone In-Between. [algo como 'O Fator Medo: Como uma emoção conecta altrutístas, psicopatas e todo mundo entre eles', em tradução livre].

A depressão, similarmente, foi indicada quase como um óculos de distorção, filtrando sinais de alegria e felicidade enquanto amplia os sinais de tristeza ou raiva. A boa notícia é que há algumas evidências de que as pessoas podem aprender a ver a ambiguidade de uma maneira mais positiva.

Melissa Brotman, uma neurocientista clínica no National Institute of Mental Health, que desenvolve tratamento para ajudar crianças cronicamente irritadas, descobriu que elas têm uma tendência a "perceber expressões neutras ou ambíguas como mais hostis e receosas do que crianças de desenvolvimento normal". Mas após uma semana de treino com uma ferramenta computadorizada em um estudo piloto realizado em pequena escala, não apenas as crianças pararam de ver tanta hostilidade em expressões ambíguas como seus pais e médicos também notaram que seu comportamento melhorou consideravelmente.

Então o que você faz se você é um adulto que geralmente pensa que seus amigos e colegas estão tristes com você? Alice aconselha a tentar lembrar que apenas porque uma expressão não está trazendo positividade, não significa que ela é algo negativo. Também lembre-se de que o que você está interpretando pode ser apenas resultado do jeito que a sobrancelha de uma pessoa é. Sobrancelhas arqueadas como um V ou para baixo têm a tendência de transparecer raiva, de acordo com os pesquisadores, mesmo quando não há raiva alguma.

* Traduzido por Hyndara Freitas