Pare de gritar e dê as boas-vindas à paz de espírito

Barton Goldsmith - O Estado de S.Paulo

Quando um mau hábito cria raízes na sua infância, é preciso um esforço grande ou pequeno para mudar, mas pode ser feito

Ao perceber que está ficando irritado e sua voz começar a se elevar, conte até dez, e não diga nada até conseguir fazê-lo de maneira apropriada

Ao perceber que está ficando irritado e sua voz começar a se elevar, conte até dez, e não diga nada até conseguir fazê-lo de maneira apropriada Foto: Modes Rodríguez/ Creative Commons

Se você cresceu numa família onde todos levantavam a voz ao mesmo tempo, hoje, ouvir as pessoas gritando, pode não incomodá-lo muito. Gritar é uma toxina que faz com que muitas pessoas percam o emprego, um relacionamento e a paz de espírito. Se há algo que pode fazer para melhorar sua vida e a vida daqueles que se preocupam com você é parar de gritar. E isto é possível, não importa há quanto tempo você tem esse mau hábito.

Cresci em uma família onde nada era dito abaixo dos 87 decibéis e todos achavam que gritar era um elemento intrínseco da personalidade. Este hábito se estendeu para toda a família e quando alguém se irritava com alguma coisa, manifestava sua ira aos gritos. Aos dez anos comecei a me isolar no meu quarto e tocar guitarra para evitar toda a cacofonia em torno. Infelizmente também desenvolvi o hábito de gritar e em casa e isso era difícil de controlar. Tinha uma escolha: sair de casa (o que aos 10 de idade não é na verdade uma opção) ou ficar e ver quem ganhava a guerra do grito.

Quando ingressei na faculdade, aos 17 anos, prometi que jamais trataria meus entes queridos da maneira como fui tratado. Os gritos eram algo doloroso; feriam meus ouvidos e meus sentimentos. E também me assustavam. Gritar é uma forma de ameaça e hoje é considerado abuso verbal e com frequência separa as famílias. Ninguém precisa conviver com isto.

Achei que esse mau hábito estava sob controle, mas às vezes ele surge e uma noite, há muitos anos, gritei na cozinha e meus gritos atravessaram as janelas de vidro duplo. Minha cara-metade saiu do aposento, o que era a coisa certa a fazer e eu fiquei ali parado tentando compreender o que havia acabado de ocorrer. Senti-me mal, mas a única coisa que podia fazer era prometer mais uma vez que não gritaria mais e me desculpar (por alguns dias). Além de gritar para o cachorro ou gritar "ai" quando a lata de lixo cai sobre meu pé, o resto está sob controle. Não quero ser uma pessoa que procura submeter os outros sendo agressiva e nem desejo essa energia tóxica em minha casa. Não grito de raiva há mais de uma década, simplesmente porque decidi que não queria mais isto.

Quando um mau hábito cria raízes na sua infância, é preciso um esforço grande ou pequeno para mudar, mas pode ser feito. O primeiro e mais importante passo é decidir que não vai mais gritar. Você tem de prometer para si mesmo: "não quero mais me comportar dessa maneira". E a chave é se controlar antes que a voz alta comece a reverberar. Você tem de se observar. Ao perceber que está ficando irritado e sua voz começar a se elevar, conte até dez, e não diga nada até conseguir fazê-lo de maneira apropriada.

Quando você deixa de gritar é uma dádiva para todos aqueles que estão à sua volta e para você também, porque os gritos na verdade enviam sensações incômodas para seu cérebro e seu corpo. Agora você pode relaxar e desfrutar dos seus dias, sabendo que eliminou esse hábito destrutivo. 

Tradução de Terezinha Martino