Os super alimentos poderão reduzir o risco do câncer?

Suzanne Allard Levingston - O Estado de S.Paulo

O papel da nutrição na prevenção do câncer é muito mais complexo do que um simples componente da dieta

Frutas vermelhas. Chá verde. Tomates. Couve-flor e outros vegetais da mesma família de crucíferas. Todos constam das listas de super alimentos que podem ajudar a prevenir o câncer. Depois, há os alimentos, como carne defumada e frituras, que supostamente podem causar câncer. São as informações que mais frequentemente ouvimos dos médicos da TV, e lemos nos sites, mas a maioria das pessoas não sabe como julgar estas afirmações.

O que parece confiável, pode não ser. Apenas cerca de 50% das recomendações de dois programas de medicina da TV, transmitidos internacionalmente, estavam respaldados por provas científicas, concluiu um recente estudo da revista BMJ.

"As mensagens que o público recebe são trechos extraídos de textos, que não mostram o quadro completo", disse Walter Willett, diretor do Departamento de Nutrição da Harvard School of Public Health. "Lá fora é o Faroeste em termos do que as pessoas ouvem sobre nutrição e câncer".

Evidentemente, as frutinhas vermelhas que comemos hoje são boas para a saúde. Mas o papel da nutrição na prevenção do câncer é muito mais complexo do que um simples componente da dieta. Por exemplo, são cada vez mais numerosas as evidências de que o estilo de vida - que engloba dieta, controle do peso e exercícios físicos - é vital para reduzir em parte os riscos. Por enquanto, os especialistas endossam conselhos gerais sobre dietas saudáveis para uma variedade de doenças e de distúrbios crônicos, em comparação ao pensamento reducionista que se fixa em alimentos ou nutrientes isolados.

O chá-verde é um dos alimentos considerados aliado no combate ao câncer

O chá-verde é um dos alimentos considerados aliado no combate ao câncer Foto: Alex Silva/Estadão

O pensamento reducionista negligencia as abordagens mais amplas da pesquisa sobre nutrição relacionada ao câncer, inclusive os padrões alimentares e os mecanismos da microbiologia. A busca, agora, se dá por respostas sobre a relação da nutrição com desafios que vão além de qualquer estudo individual.

Quando ouvimos que determinado alimento previne o câncer, devemos perguntar: Que tipo de câncer? "O termo câncer refere-se a inúmeras doenças", afirmou Marian Neuhouser, epidemiologista nutricional do Fred Hutchinson Cancer Research Center de Seattle.

Enquanto as doenças cardiovasculares podem ser divididas em diversos tipos, como infarto do miocárdio, derrame e moléstia vascular periférica , "o câncer, na realidade, abrange mais de cem doenças diferentes", acrescentou.

"O câncer é uma doença muito complexa, muito árdua para ser desvendada, tanto no plano das células, no plano clínico quanto no epidemiológico e preventivo", disse Willett.

O câncer se forma quando células anormais se dividem de maneira descontrolada. Mas não devemos supor que todos os cânceres atuem da mesma maneira, afirma Geoffrey Kabat, epidemiologista de câncer do Albert Einstein College of Medicine de Nova York. Cânceres diferentes terão fatores de risco um pouco diferentes, que podem ou não se sobrepor: o câncer ligado ao tabagismo, por exemplo, pode diferir do relacionado à radiação.

Os pesquisadores aconselham a não se fiar num único estudo. Semanalmente, surgem novas descobertas, mas "nós nunca consideramos um único estudo a resposta a alguma coisa", disse Nancy Potischman, epidemiologista nutricional do National Cancer Institute. Somente quando é possível detectar os mesmos resultados em estudos múltiplos em múltiplas populações, "podemos pensar que, de fato, este alimento pode ser importante", ela disse.

Embora seja relativamente fácil constatar o efeito de um alimento numa cobaia, é difícil estudar seres humanos, porque eles misturam uma variedade de alimentos em seus pratos. Estudos realizados em populações perguntam aos participantes o que eles comem e fazem o acompanhamento por um determinado período de tempo. Testes clínicos podem ter um grupo que come determinado alimento e um grupo de controle que não o consome, mas estes estudos são muito dispendiosos, específicos, e difíceis de organizar e manter. Às vezes, conclusões promissoras na pesquisa inicial, não se revelam definitivas em estudos subsequentes.

No entanto, buscamos desesperadamente super alimentos - e nutrientes. Durante algum tempo, a atenção se concentrou no ácido fólico, que não correspondeu a todas as nossas expectativas, pelo menos em relação ao câncer. Agora, existe um enorme interesse pela vitamina D.

"Em geral ocorre o seguinte processo: levantam-se hipóteses e elas são testadas", disse Jo L. Freudenheim, professora de epidemiologia e saúde ambiental na State University de Nova York em Buffalo. "Na medida em que isto é divulgado para o público, pode levar a expectativas não razoáveis", e dar origem a uma nova moda.

O tabagismo continua sendo a principal causa de incidência de câncer e de morte em todo o mundo que pode ser evitada. Depois do tabagismo, vem o trio do estilo de vida da dieta, controle de peso e exercício físico que pode ser relacionado a um a dois terços de cânceres.

"Eles são insuperáveis", disse Neuhouser. "Você pode ter uma dieta ótima e um peso saudável, mas é extremamente sedentário , logo está em risco".

E existe uma forte relação entre o excesso de peso e vários tipos de câncer, inclusive do esôfago, de mama (depois da menopausa), endométrio, cólon e reto, rins, pâncreas, tireoide, vesícula, segundo o NCI. O exercício ajuda a equilibrar as calorias consumidas e as calorias queimadas.

Há um número crescente de evidências que mostram que o estilo de vida pode afetar o risco de câncer.

No estudo mais amplo deste tipo, foi avaliado cerca de meio milhão de americanos para saber se seguiam as diretrizes estabelecidas pela American Cancer Society para a prevenção do câncer, que incluem evitar o fumo, um peso saudável, constante; atividade física; consumo limitado de álcool; e uma dieta que enfatize os vegetais.

Os que seguiram as diretrizes mais sistematicamente reduziram o risco de câncer (10% para os homens, e 19% das mulheres) e de morrer de câncer (25% dos homens, 24% para as mulheres) em comparação com aqueles cujos hábitos não obedeceram rigorosamente às diretrizes. O mais impressionante foi a redução do risco geral de morte: 25% para os homens, 33% para as mulheres ao longo dos 14 anos de duração do estudo.

Cerca de 14 tipos de câncer seriam afetados pelo comportamento e pelo estilo de vida, particularmente câncer da vesícula, endometrial, do fígado e colorretal. Tanto para homens quanto para as mulheres, um peso saudável e atividade física foram os principais fatores na redução das mortes em geral. O Albert Einstein College of Medicine Researchers publicou esta análise online no American Journal of Clinical Nutrition, na edição de janeiro, com base em dados fornecidos por um estudo do National Institutes of Health/AARO.

Kabat, o principal autor do estudo, disse que estes resultados, embora encorajadores, poderiam ser explicados por fatores desconhecidos: as pessoas que seguem com mais persistência as diretrizes talvez costumem cuidar da saúde, e tenham bom acesso a tratamentos. Mas em geral, as conclusões afirmam que décadas de outros estudos mostram que "o cuidado com um peso saudável, fazer atividades físicas e certos aspectos da dieta estão associados a uma saúde melhor", ele disse.

Outro enfoque do câncer e da nutrição leva em conta certos padrões da dieta. "O que comemos diariamente não mudará nosso risco de câncer, mas o padrão a longo prazo sim", segundo Neuhouser. No Women's Health Initiative Observational Study, foram analisadas várias dietas que dão muita ênfase a frutas, vegetais, grãos integrais e plantas ou proteínas de plantas com base nas informações colhidas ao longo de mais de 12 anos junto a cerca de 64 mil mulheres após a menopausa. Uma dieta de excelente qualidade foi associada a baixas taxas de morte por doenças crônicas como o câncer, como noticiou no ano passado o American Journal of Epidemiology.

Para os pesquisadores do campo da nutrição no período de desenvolvimento, a questão não é o que a gente come, mas quando come.

"Ainda não compreendemos plenamente se existem períodos da nossa vida que são mais importantes para se chegar a um grau saudável dos três pilares" da dieta, do exercício e do peso, disse Neuhouser. Por exemplo, no caso de câncer da mama, os pesquisadores analisam a alimentação no nascimento e na época da primeira menstruação até a primeira gravidez, disse Freudenheim.

São cada vez mais numerosas as evidências de que comer carne vermelha na época do curso secundário pode influir no desenvolvimento de alguns tipos de câncer de mama, dezenas de anos mais tarde, segundo Willett. Além disso, o consumo do álcool entre as jovens pode elevar o risco de câncer de mama numa época posterior.

Uma maior compreensão do metabolismo poderá oferecer indicações de como se desenvolvem as células do câncer, segundo Potischman, do National Cancer Institute. A metabolômica é um ramo emergente da ciência que focaliza os metabólitos, as substâncias produzidas por meio da digestão e outros processos corporais.

As bactérias, os vírus e outros organismos que vivem no ser humano aparentemente desempenham um papel maior na saúde e nas doenças do que se acreditava anteriormente, disse Freudenheim. De que maneira os incontáveis micróbios que vivem em áreas como intestinos e boca poderiam contribuir ou impedir o desenvolvimento do câncer é uma das questões em aberto na nova área de estudos do microbioma, que se refere aos inúmeros organismos do corpo, 10% dos quais são humanos e 90% não humanos.

A nutrigenética considera o que comemos, os componentes dos nossos alimentos e suas interações com os processos genéticos. Quanto à dieta, "neste momento estamos fazendo recomendações gerais, mas elas não servem indiscriminadamente para todas as pessoas", afirma Stephen Hursting, professor de nutrição da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Ele disse que algum dia a pesquisa das nossas diferenças genéticas e bioquímicas poderá levar a recomendações personalizadas para uma dieta que permita reduzir o risco de câncer.

Considerando as relações entre câncer e nutrição, "não devemos perder de vista o quadro geral preocupando-nos com coisas como 'O chá verde será a solução definitiva?' " disse Kabat. "É improvável ".Mas, acrescentou, hábitos de vida saudáveis podem fazer uma grande diferença.

"Não há motivo para se acreditar que possam ser prejudiciais, e há muitas evidências concretas ou sugestivas de que farão bem". Uma compreensão equilibrada da pesquisa por trás de tudo isto é um perfeito complemento para um estilo de vida equilibrado.

Tradução de Anna Capovilla