'Não existe nenhuma necessidade de explorar os animais', diz mulher vegana há quatro anos

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

No dia mundial do veganismo, veganos contam como viver sem explorar os animais trouxe melhorias na saúde e os ensinou a praticar a empatia

Cada vez mais popular, o veganismo ainda é alvo de muita falta de informação, mas os veganos tentam desmistificar o estilo de vida garantindo que é possível para todos..

Cada vez mais popular, o veganismo ainda é alvo de muita falta de informação, mas os veganos tentam desmistificar o estilo de vida garantindo que é possível para todos.. Foto: Pixabay

No dia 1º de novembro é comemorado o dia mundial do veganismo, que, na verdade, é um estilo de vida e não apenas uma dieta. Os que adotam o veganismo não utilizam nenhum produto fruto de exploração animal. Não há dados confiáveis sobre o número de veganos no Brasil, mas segundo uma pesquisa do Ibope de 2012, 15,2 milhões de brasileiros se declaravam vegetarianos.

O termo não é novo, mas tem se tornado cada vez mais popular e, hoje, existem diversos blogs, sites e grupos em redes sociais dedicados aos veganos, principalmente no que diz respeito à alimentação – o mercado vegano, inclusive, viu seu faturamento aumentar expressivamente recentemente. Com isso, filmes, documentários e artigos sobre o tema têm sido amplamente divulgados e muitas pessoas têm sido convencidas a não comer mais alimentos derivados do sofrimento animal.

A estudante de medicina veterinária Ana Castro Cabral virou vegana em 2013, aos 16 anos. "O principal motivo foi a empatia pelos animais. Não existe necessidade nenhuma de explorar os animais e, depois que descobri como eles eram tratados nos abatedouros, nas produções de leites e ovos, eu não pude fechar meus olhos para tamanha crueldade e virei vegana por amor a eles", conta. Ela disse que sentiu dificuldade no início para adaptar a alimentação, mas o pensamento de que "o que os animais passam é muito pior" nunca a deixou desistir.

Alguns dos mitos que rodeiam o veganismo é que a dieta sem derivados de animais não seria adequada para todos pela falta de alguns nutrientes, mas Pedro Lutti, um atleta de alto rendimento, discorda disso. Ele pratica corridas de montanha e tem uma dieta totalmente vegetal desde 2005.

"Deixei de consumir carne em 2000 e me tornei vegano cinco anos depois, em 2005. A industria da carne e do leite é responsável por milhares de mortes, maus tratos a animais humanos e não humanos. É também um grande peso para o meio ambiente. Quando entendemos que todos os animais sentem dor, medo, e que devemos nos colocar no mesmo patamar de igualdade que eles, percebemos que o que muitos tratam como uma escolha pessoal (comer carne, ovos, leite) é, na verdade, uma decisão que tira o direito de viver desses animais", opina.

Em sua saúde, ele diz que muita coisa mudou para melhor, principalmente em seu condicionamento físico – e ele atribui isso à alimentação, que dá "mais energia e uma recuperação muscular mais rápida". Lutti pratica corridas de montanha com distâncias que variam de 50 a 80 quilômetros. Alguns exemplos de atletas veganos são as tenistas Venus e Serena Williams, o jogador de beisebol Patrick J. Neshek, o corredor Carl Lewis e o triatleta Daniel Meyer. 

A jornalista Paula Jacob, 24, começou a ser vegetariana na adolescência por causa de seu amor aos animais, mas, alguns anos depois, voltou a comer carnes. Foi só neste ano, após voltar a se interessar sobre a indústria alimentícia, que ela decidiu virar vegana. "Eu sempre acreditei que tudo o que a gente come acaba refletindo no nosso dia a dia, na aparência, no humor, em tudo. E aí eu estava repensando todas as questões de saúde e proteção animal, e aí quando lançou Okja na Netflix, eu assisti. E depois disso, não foi por causa do filme, porque eu já sabia como aconteciam as coisas, mas eu acho que o filme foi um antes e depois, ressucitou os meus ideiais da adolescência. Após o filme, eu disse: 'Não quero mais comer animais, não quero mais fazer parte disso'", relembra.

Depois disso, Paula conta que virou vegana da noite para o dia e que, cada vez mais, começou a se aproximar de pessoas veganas e de pesquisar sobre como as animais são tratados na indústria alimentícia e também na indústria de cosméticos. "Eu vi aqueles vídeos de denúncias contra os abates de animais e eu não conseguia entender como todo o processo de fazer comida, que é algo tão gostoso, pode ser baseado em morte e sofrimento. Eu acho que você muda a percepção de mundo como um todo, eu me importo muito mais com os alimentos, com o meio-ambiente", diz.

O interesse pelo processo de produção dos alimentos, da criação dos animais e dos usos deles nas indústrias virou uma forma de ativismo para a jornalista, que começou a usar seu Instagram para informar as pessoas sobre como cada coisa impacta o meio-ambiente. Em seus Stories, ela usa vídeos, emojis e imagens para explicar, de forma simples, dados sobre a indústria cosmética, poluição, gasto de água, curiosidades, questões biológicas dos animais e também dá alternativas e dicas de marcas veganas e cruelty-free. "Comecei despretenciosa, juntando informações. Vou atrás de artigos, de reportagens, de documentários e faço meus Stories baseados nisso, de forma leve, porque eu acho que falar agressivamente não vai adiantar nada", fala. 

Uma das críticas mais comuns ao veganismo é que a dieta seria muito cara e, portanto, inacessível para boa parte da população. Entretanto, os veganos discordam disso, explicando que os alimentos veganos já prontos realmente têm preços altos, mas uma alimentação baseada em verduras, legumes, frutas, leguminosas e sementes é, na verdade, mais barata do que consumir carnes e derivados de leite.

Ana acredita que falta informação sobre os alimentos que os veganos realmente comem no dia a dia. "Eu dificilmente como alimentos veganos industrializados porque não é tão acessível, mas ser vegano não é caro, eu vejo os preços das carnes e fico abismada com os valores e como pode as pessoas acharem que veganismo é caro. O veganismo só não é acessível para pessoas que realmente não possuem qualquer informação", opina ela, que conta que viu sua saúde melhorar somente com a alimentação, sem sentir falta de nenhum nutriente.

Após tantos anos sendo vegano, Lutti diz ser feliz por "ter a consciência de não estar colaborando para o sofrimento de milhares de animais", o que ele acreditar ser o primeiro passo para entender e praticar o respeito. "O veganismo é um posicionamento político de oposição ao consumo demasiado, a crueldade, a degradação do meio ambiente, machismo, sexismo. É praticar respeito absoluto pelos animais humanos e não humanos e pelo meio ambiente", finaliza.

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