Intolerantes à lactose nem sempre precisam mudar radicalmente a dieta

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Teste indica grau de capacidade de digestão; hábitos alimentares devem ser adaptados de acordo

  

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O resultado positivo em um exame para detectar intolerância à lactose não significa que é preciso entrar em pânico e tirar completamente o leite e todos os seus derivados da dieta. Antes de tudo, é preciso lembrar que intolerância não é alergia e, portanto, na maioria dos casos não é preciso ser tão radical na hora de restringir a alimentação.

“Tirar a lactose completamente pode privar muito a dieta. Mesmo que tenhamos uma variedade grande de alimentos sem a substância, ainda assim não justifica se não for uma intolerância de alto grau”, defende Clayton Camargos, nutricionista e doutor pela Universidade de Barcelona.

Para descobrir o grau de tolerância de cada pessoa, é preciso fazer um exame. O paciente colhe uma amostra de sangue e, em seguida, ingere um líquido com grande concentração de lactose. Depois disso, tem seu sangue coletado mais algumas vezes em um período de normalmente duas horas. No laboratório, a glicemia é medida em cada amostra. Como a lactose é o açúcar do leite, pessoas capazes de digeri-la apresentarão aumento no nível de açúcar no sangue. Os intolerantes, por outro lado, terão pouca ou nenhuma mudança.

Com acompanhamento de um profissional, o paciente deverá adaptar sua dieta para não precisar radicalizar, se não tiver um nível muito alto de intolerância, mas também não prejudicar seu organismo. “Quanto maior a exposição, maior vai ser a manifestação dos sintomas. Se você mantém o consumo alto, a intolerância vai aumentar. Isso agride a mucosa do intestino e aumenta a dificuldade em absorver a lactose”, explica Camargos.

Uma boa notícia para os intolerantes é que uma nova determinação da Anvisa exige que os fabricantes citem no rótulo dos produtos o nível de lactose. Serão três ‘categorias’: zero lactose, baixo teor e contém lactose. Assim, ficará mais fácil adaptar a dieta de acordo com o nível de intolerância. O nutricionista comemora a iniciativa. “[A Anvisa] acertou demais. É preciso regulamentar o mercado com o ‘boom’ que isso se tornou no Brasil. Há alimentos que se dizem sem lactose, mas na verdade não são exatamente o que se propõem ao consumidor.” A indústria tem dois anos para se adaptar à regra, a partir de fevereiro de 2017.

Diversos produtos anunciados como 'sem lactose', têm, na verdade, a substância já 'digerida'. Isso acontece com os leites de vaca 'sem lactose' vendidos no mercado. A adição da lactase no produto já é suficiente para resolver o problema de muitos intolerantes. No entanto, algumas pessoas com intolerância mais severa apresentam reações mesmo a esses produtos.

Quando suspeitar. A intolerância à lactose tem quatro sintomas principais, explica Camargos. “São principalmente diarreia, náusea (às vezes com vômito), cólicas, dores abdominais de maneira difusa (principalmente no baixo ventre) e inchaço do abdome. Eles começam a se manifestar entre 30 minutos e duas horas após ingerir um alimento com lactose.”

Algumas etnias têm maior propensão à condição, como asiáticos, negros, hispânicos e indígenas do continente americano. Como a intolerância é também genética, os brasileiros, com fortes traços dessas etnias, são bastante afetados.

Além da genética, a condição pode aparecer com o envelhecimento, quando o indivíduo vai produzindo cada vez menos lactase (enzima da digestão da lactose), ou como resultado de alguma doença que compromete o intestino. Bebês prematuros também têm mais chances de serem intolerantes à lactose, pois a produção de lactase ocorre principalmente no último trimestre da gravidez.